o rum e o refúgio

“Difícil é essa condição humana.
Eu não estava armado para isso.
Esses trens, essa vida…”

Em uma das cenas mais bonitas de 35 Doses de Rum, um homem diz para sua filha que eles têm, dentro de casa, absolutamente tudo o que precisam. Talvez tenham, de fato: afeto, liberdade, livros, música, comida e as memórias, quase tudo. Pai e filha vivem num subúrbio de Paris, e só aos poucos sabemos da morte da mãe, da relação despedaçada do viúvo silencioso com a motorista de táxi que mora ao lado, da barreira que a menina impõe ao amor, do vizinho que ameaça ir embora numa atitude de quase desespero.

Aos poucos sabemos, ou porque o filme sugere ou vai ver são as cicatrizes, das razões de pai, filha, motorista de táxi e vizinho. Aos poucos entendemos, ou porque o filme sugere ou vai ver vocês sabem, que as razões deles são um pouco como as de todos nós: o medo do envolvimento, a dor da perda, o desequilíbrio dos traumas, a vontade do encontro.

O lar deles, como acredito devem ser os verdadeiros lares, é o abrigo que protege da solidão da cidade grande, dos caminhos tortos do trem, do mau humor cuspido no trânsito, dos vazios e das expectativas desfeitas, das tristezas acumuladas no tempo, dos finais, das ausências [até mesmo as dos vivos, que são tão ou mais difíceis do que a falta que nos fazem os que já estão mortos] e da própria morte.

Seus silêncios dizem quase tudo, como dizem entre si – sem palavras, ou com poucas – aqueles que atingiram a beleza de não precisar dizer da raiva ou da saudade, do desejo ou da tristeza, do amor ou das necessidades, raiva, amor, saudade, desejo, tristeza e necessidade subentendidos, e compreendidos igual. São como talvez devêssemos ser todos, também, afetuosos, silenciosos, simples e tranquilos, verdadeiros, sinceros e presentes, quase nunca indelicados, quase nunca indiferentes, quase nunca reticentes.

Os personagens de 35 Doses de Rum compartilham o desconforto diante da realidade, como fazem os amigos de verdade, agem como cúmplices diante do gato morto que vai pro lixo, do flerte e da dor de cotovelo embaladas por Nightshift e aquela melodia tristíssima dos Commodores, tristíssima como a expressão da personagem que insiste num amor não correspondido; do trabalho, da panela nova, da faxina catártica, do carro que pifa numa noite de chuva em que a música compensa até as divergências.

O filme é todo de movimentos suaves, corpos e objetos dançando a dança sutil dos melhores encontros, aqueles que a gente carrega quando vai embora – e deixa um pedaço com eles. É como são as melhores coisas do mundo, como a madrugada em que havia um violão e nenhuma expectativa; como o tempo em que não havia mais nada de importante, só os dois. É como são as melhores noites ou então os dias que a gente celebra com as 35 doses de rum destinadas apenas às ocasiões mais importantes da vida.

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7 comentários sobre “o rum e o refúgio

  1. Bonito, Ana.
    E adoro “Nightshift”.
    Ela cita “What’s going on”, a minha favorita do Marvin Gaye.
    E ambas tocam direto na Antena Um! 😉

  2. Incrível como eu sabia que tinha tudo aquilo de que precisava dentro de minha casa até poucos anos atrás, e ainda mais incrível perceber, hoje, que tantas vezes eu imaginei (tolamente) que duraria pra sempre.

    Não dura, não durou. A vida arrasta tudo.

    Bjs, Ana.

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