e por falar em sutileza…

Marcelo Yuka diz, numa entrevista de A Gazeta neste final de semana, que quem passa por uma situação limite tende a aprender pelo sofrimento, “a linguagem que o ser humano mais entende”. Mas – ele ressalta, acho que coberto de razão – difícil também e às vezes tão sólido quanto aprender pela dor é aprender pelo amor. “O médico Ernesto Guevara não se tornou o guerrilheiro Che Guevara por rancor, mas por uma concepção muito grande de amor”, ele afirma, um amor “mais forte que um soco”. “Posso ter narrado o belo, narrado o feio, mas agora quero narrar o sutil”. Ponto pra ele.

o rum e o refúgio

“Difícil é essa condição humana.
Eu não estava armado para isso.
Esses trens, essa vida…”

Em uma das cenas mais bonitas de 35 Doses de Rum, um homem diz para sua filha que eles têm, dentro de casa, absolutamente tudo o que precisam. Talvez tenham, de fato: afeto, liberdade, livros, música, comida e as memórias, quase tudo. Pai e filha vivem num subúrbio de Paris, e só aos poucos sabemos da morte da mãe, da relação despedaçada do viúvo silencioso com a motorista de táxi que mora ao lado, da barreira que a menina impõe ao amor, do vizinho que ameaça ir embora numa atitude de quase desespero.

Aos poucos sabemos, ou porque o filme sugere ou vai ver são as cicatrizes, das razões de pai, filha, motorista de táxi e vizinho. Aos poucos entendemos, ou porque o filme sugere ou vai ver vocês sabem, que as razões deles são um pouco como as de todos nós: o medo do envolvimento, a dor da perda, o desequilíbrio dos traumas, a vontade do encontro.

O lar deles, como acredito devem ser os verdadeiros lares, é o abrigo que protege da solidão da cidade grande, dos caminhos tortos do trem, do mau humor cuspido no trânsito, dos vazios e das expectativas desfeitas, das tristezas acumuladas no tempo, dos finais, das ausências [até mesmo as dos vivos, que são tão ou mais difíceis do que a falta que nos fazem os que já estão mortos] e da própria morte.

Seus silêncios dizem quase tudo, como dizem entre si – sem palavras, ou com poucas – aqueles que atingiram a beleza de não precisar dizer da raiva ou da saudade, do desejo ou da tristeza, do amor ou das necessidades, raiva, amor, saudade, desejo, tristeza e necessidade subentendidos, e compreendidos igual. São como talvez devêssemos ser todos, também, afetuosos, silenciosos, simples e tranquilos, verdadeiros, sinceros e presentes, quase nunca indelicados, quase nunca indiferentes, quase nunca reticentes.

Os personagens de 35 Doses de Rum compartilham o desconforto diante da realidade, como fazem os amigos de verdade, agem como cúmplices diante do gato morto que vai pro lixo, do flerte e da dor de cotovelo embaladas por Nightshift e aquela melodia tristíssima dos Commodores, tristíssima como a expressão da personagem que insiste num amor não correspondido; do trabalho, da panela nova, da faxina catártica, do carro que pifa numa noite de chuva em que a música compensa até as divergências.

O filme é todo de movimentos suaves, corpos e objetos dançando a dança sutil dos melhores encontros, aqueles que a gente carrega quando vai embora – e deixa um pedaço com eles. É como são as melhores coisas do mundo, como a madrugada em que havia um violão e nenhuma expectativa; como o tempo em que não havia mais nada de importante, só os dois. É como são as melhores noites ou então os dias que a gente celebra com as 35 doses de rum destinadas apenas às ocasiões mais importantes da vida.

do que aprendi com saramago

O dia todo (e amanhã tem mais) disseram coisas sobre o José Saramago, do talento literário dele às posições políticas controversas, da descrença em Deus dele a sua fábula de quando a morte deixou de matar, dos livros, da vida, das pirraças e das discórdias. Falaram da obra, das frases marcantes, do exílio, de um monte de coisas, e de como o mundo ficou mais cego com a morte dele, referência bonita ao igualmente bonito Ensaio sobre a Cegueira, um livro que – acho – faz do Saramago, como o J.D. Salinger e O Apanhador no Campo de Centeio – um sujeito que não morreu e não vai morrer nunca.

Posturas polêmicas à parte, Saramago ensinou com suas frases imensas (em todos os sentidos) que a gente precisa “recuperar a lucidez, resgatar o afeto, saber da responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. Com seus personagens sem nome – a mulher do médico, o ladrão, o primeiro cego, a rapariga de óculos, o velho da venda preta – cegados de repente por uma epidemia que ninguém tampouco sabia qual era, mostrou que, num mundo de cegos, as coisas eram o que verdadeiramente eram. Havia (como há) os cínicos, os maniqueístas e os egoístas e havia (como há, ufa) os que ainda sabem do sentido do substantivo afeto e do verbo dividir, e seguem, gostando e compartilhando, até nos momentos mais caóticos.