terapia do balde

Primeiro você enche até o talo um balde com água limpa. Depois escolhe um lugar da casa que esteja sujo [sujo mesmo], varanda pros que moram na linha da poluição, cozinha pros que não lavam a louça há mais de uma semana, banheiro decorado segundo os princípios, modelos e fragrâncias das melhores rodoviárias do mundo e por aí vai. Antes você se certifica de que os objetos eletrônicos, os tecidos que encolhem, pessoas, bichos de estimação e os livros estejam a salvo. Daí espalha saponáceo líquido nas versões alöe vera, eucalipto ou outro de sua preferência, mira o cantinho entre o chão e a parede, segura na mão imaginária de Deus e vai, jogando a água do balde de uma vez com toda a força possível e mentalizando que, dali pra frente, tudo vai ser diferente.

[O bom é ser feliz e mais nada].

Você pensa que saudade, raiva, decepção e dúvida são como aquele cinza que insiste em pintar o piso, o azulejo e a parede, e de repente não mais que de repente o cinza não está mais ali. Pensa que as expectativas desfeitas são só uma vaga lembrança de um teoria mais ultrapassada que o determinismo de Woodhead ou a moda das misturas cromáticas do bege das areias vulcânicas com o ruge das maçãs do rosto europeias. Você pensa que não importa mesmo que importe e, enquanto a água vai pelo ralo e o chão volta a brilhar bonitinho, você mentaliza um rosto, uma palavra, uma promessa ou uma história inteira, respira fundo e manda eles pelo ralo, pensando que sujeira, como quase tudo na vida, é coisa que dá e passa. Dói um pouco, mas funciona que é uma beleza.