ainda sobre o grande gabito

Terminei agora há pouco de escrever a resenha para o jornal sobre a biografia do Gabriel García Márquez. É um livro e tanto, em diferentes sentidos. Primeiro porque tem 814 páginas, figuras interessantes e histórias recolhidas em 17 anos de trabalho e dezenas de entrevistas, revelando um Gabito contraditório, politicamente controverso, profundamente marcado pela presença do avô, pela ausência do pai, pela casa em que passou os primeiros anos da sua vida (e seus fantasmas, vivos e mortos) e por um fortíssimo sentimento de abandono, igualmente trazido da infância.

Também é um livro e tanto porque desperta vontades diferentes, de escrever mais, de viajar pela Colômbia (vamos?), de acordar a alma das coisas, de retomar uma história suspensa no ar e depois quem sabe reler (de novo) Cem Anos de Solidão, aquela edição surradinha que comprei no Centro, numa livraria da ladeira que nem existe mais (a livraria, não a ladeira), Rebeca, Amaranta, Úrsula e o menino com rabo de porco, Josés Arcádios, Arcádios e Aurelianos, que agora podiam ser outros, com nome, sobrenome, diminutivo e apelido, alguns igualmente mágicos, outros exatamente o contrário.

autorretrato

Por Gabriel García Márquez
Colômbia, 1966

gabo

 

Meu nome, senhor, é Gabriel García Márquez. Sinto muito: também não gosto do nome, porque é uma sequência de lugares-comuns cuja conexão nunca fui capaz de fazer. Nasci em Aracataca, Colômbia, há quarenta anos, e ainda não me arrependi. Meu signo é Peixes e minha esposa é Mercedes. Essas são as duas coisas mais importantes que aconteceram na minha vida, pois, graças a elas, pelo menos até agora, tenho sido capaz de sobreviver escrevendo.

Sou escritor por causa da timidez. Minha verdadeira vocação é ser mágico, mas fico tão encabulado tentando fazer os truques que tive de me refugiar na solidão da literatura. De qualquer maneira, as duas atividades me conduziram à única coisa que me interessa desde que eu era criança: que meus amigos pudessem me amar mais.

No meu caso, ser escritor é uma realização excepcional, porque escrevo muito mal. Tenho tido de me submeter a uma disciplina atroz para terminar meia página depois de oito horas de trabalho; luto fisicamente com cada palavra e é quase sempre a palavra que vence, mas sou tão teimoso que consegui publicar quatro livros em vinte anos. O quinto, que escrevo agora, progride mais devagar que os outros, porque, entre meus credores e minhas dores de cabeça, tenho pouco tempo livre.

Nunca falo sobre literatura, porque não sei de que se trata; além disso, estou convencido de que o mundo seria o mesmo sem ela. Por outro lado, estou convencido de que ele seria bastante diferente sem a polícia. Penso, portanto, que teria sido muito mais útil para a humanidade se, em vez de escritor, eu fosse um terrorista.

os sul-africanos, os cubanos e a alegria

Nunca fui à África do Sul, então pode ser apenas uma impressão apressada e equivocada herdada das notícias e das predisposições. Mas acho bonito o modo como os sul-africanos parecem rir de tudo, dançar quase sempre, levar ao pé (literalmente) da letra, mesmo sem saber, a lição gingada do mestre Jorge Ben, que ensinou que, quando a gente para de brincar e mexer, a barba cresce, o amor desaparece e o coração, ao invés de bater, padece.

(A arte de mexer vem desde os tempos da pedra lascada).

Lembra os cubanos e o movimento deles, seu riso incontido apesar de todas as faltas, o rum e as maracas tocando mambos, rumbas, salsas e merengues até a madrugada, o vento batendo na mureta e a beleza incontida das descobertas, da simplicidade e da igualdade, os livros espalhados pelas praças de Havana velha, o misticismo de Santa Clara, o azul e o amarelo da praia e a toda a ternura que eles, obedientes ao doutor Ernesto, não perderam.

São, pelo menos aparentemente, territórios feitos de alegria e música, embora não faltem motivos para a tristeza e o rancor, um maltratado pelo futuro político incerto, pelas ausências materiais e pela saudade do comandante, o outro marcado pela segregação racial que em tese acabou, mas não na prática, e por números assustadores: 5,7 milhões (mais de 10% da população) de africanos contaminados pelo vírus da Aids, 1,4 milhão de órgãos, 36 mil casos registrados de estupro, 27% da população desempregada, 28 mil assassinatos por ano e por aí vai.

Os dados estão num artigo sobre um episódio que talvez explique muito da postura dos africanos e que deveria, acho, ser um pouco a postura de todos nós. O autor conta que, em 2002, em Johannesburgo, perguntou a um motorista de táxi onde seu povo, tão maltratado pelo colonialismo e pelo apartheid e ainda hoje mergulhado em desigualdades, encontrava tanta alegria. O sujeito respondeu com uma frase certeira: “O sofrimento nos ensinou que a nossa alegria tem de ser só nossa, vir de dentro. Nada pode tirar nossa alegria”.

francisco

Cresci ouvindo música brasileira de todo o tipo, a agulha do toca-discos da sala chiando enquanto eu existia ou brincava no quarto. Tinha pouca ou nenhuma ideia do que viria pela frente, dos projetos, das perspectivas, das perdas e dos amores, das palavras, dos sucessos e dos desafetos, e toda a tragédia do mundo, nos meus sete anos de idade, estava no Brejo da Cruz.

Crianças alucinadas que comiam luz, meninos desencarnados ficando azuis e coisas do tipo assombravam as minhas noites, como mulas sem cabeça ou monstros debaixo da cama, alimentavam pesadelos que eu preferia guardar em silêncio com medo de que de fato existissem, de que fossem reais como o pneu furado da última semana e não mais frases e acordes de sétimas e sustenidos.

De qualquer maneira, agradeço profundamente por minha mãe limpar os móveis, arrumar as estantes e fazer o almoço ouvindo aquelas canções, porque certamente plantou ali, e talvez nem saiba, o amor pela música que alimento dia e noite, no riso e no violão das insônias, nas Bachianas, em Todo Sentimento, em Como Dois e Dois e 20 Anos Blue, no Elis e Tom, em For no One e em Ella, nas novidades e nas relíquias – e mais ainda naquela noite, quando vi ao vivo Chico Buarque pela terceira vez na vida.

Ele subiu ao palco quase pontualmente, com aquele seu jeito desconcertado de existir e, não fossem os garçons que passavam de um lado para o outro, a noite teria sido perfeita – eu, aliás, não entendo a lógica do público destes tempos, um entra-e-sai desenfreado, um pede-e-paga-mais-tarde frenético, um atende-o-celular-só-um-pouquinho-pode-falar que banaliza a arte, desrespeita o artista e irrita o vizinho.

Fora isso, houve canções na medida certa, vinho tinto e conversa em dia, lembranças de 99 e 87, saudades de antes e ausência daquela hora; houve Imagina, João e Maria e Sem Compromisso no bis, houve Porque Era Ela, Porque Era Eu, aquela da menina saindo do mar e A História de Lily Braun, o homem dos sonhos dela aparecendo no dancing, e aqueles olhos de comer fotografia…

[Eu disse xis]

Meus medos eram já outros, não parar direito, não sonhar direito, não criar direito, não ouvir direito, não fazer o que deve ser feito, ser ausente, reticente, inconsequente ou displicente, ter apego, descrença ou dor nas costas, excesso de peso ou falta de perspectiva. O “Brejo da Cruz” não passava da canção dois daquele disco de capa vermelha – que, por mania ou precaução, ainda hoje eu prefiro pular.

e por falar em sutileza…

Marcelo Yuka diz, numa entrevista de A Gazeta neste final de semana, que quem passa por uma situação limite tende a aprender pelo sofrimento, “a linguagem que o ser humano mais entende”. Mas – ele ressalta, acho que coberto de razão – difícil também e às vezes tão sólido quanto aprender pela dor é aprender pelo amor. “O médico Ernesto Guevara não se tornou o guerrilheiro Che Guevara por rancor, mas por uma concepção muito grande de amor”, ele afirma, um amor “mais forte que um soco”. “Posso ter narrado o belo, narrado o feio, mas agora quero narrar o sutil”. Ponto pra ele.

o rum e o refúgio

“Difícil é essa condição humana.
Eu não estava armado para isso.
Esses trens, essa vida…”

Em uma das cenas mais bonitas de 35 Doses de Rum, um homem diz para sua filha que eles têm, dentro de casa, absolutamente tudo o que precisam. Talvez tenham, de fato: afeto, liberdade, livros, música, comida e as memórias, quase tudo. Pai e filha vivem num subúrbio de Paris, e só aos poucos sabemos da morte da mãe, da relação despedaçada do viúvo silencioso com a motorista de táxi que mora ao lado, da barreira que a menina impõe ao amor, do vizinho que ameaça ir embora numa atitude de quase desespero.

Aos poucos sabemos, ou porque o filme sugere ou vai ver são as cicatrizes, das razões de pai, filha, motorista de táxi e vizinho. Aos poucos entendemos, ou porque o filme sugere ou vai ver vocês sabem, que as razões deles são um pouco como as de todos nós: o medo do envolvimento, a dor da perda, o desequilíbrio dos traumas, a vontade do encontro.

O lar deles, como acredito devem ser os verdadeiros lares, é o abrigo que protege da solidão da cidade grande, dos caminhos tortos do trem, do mau humor cuspido no trânsito, dos vazios e das expectativas desfeitas, das tristezas acumuladas no tempo, dos finais, das ausências [até mesmo as dos vivos, que são tão ou mais difíceis do que a falta que nos fazem os que já estão mortos] e da própria morte.

Seus silêncios dizem quase tudo, como dizem entre si – sem palavras, ou com poucas – aqueles que atingiram a beleza de não precisar dizer da raiva ou da saudade, do desejo ou da tristeza, do amor ou das necessidades, raiva, amor, saudade, desejo, tristeza e necessidade subentendidos, e compreendidos igual. São como talvez devêssemos ser todos, também, afetuosos, silenciosos, simples e tranquilos, verdadeiros, sinceros e presentes, quase nunca indelicados, quase nunca indiferentes, quase nunca reticentes.

Os personagens de 35 Doses de Rum compartilham o desconforto diante da realidade, como fazem os amigos de verdade, agem como cúmplices diante do gato morto que vai pro lixo, do flerte e da dor de cotovelo embaladas por Nightshift e aquela melodia tristíssima dos Commodores, tristíssima como a expressão da personagem que insiste num amor não correspondido; do trabalho, da panela nova, da faxina catártica, do carro que pifa numa noite de chuva em que a música compensa até as divergências.

O filme é todo de movimentos suaves, corpos e objetos dançando a dança sutil dos melhores encontros, aqueles que a gente carrega quando vai embora – e deixa um pedaço com eles. É como são as melhores coisas do mundo, como a madrugada em que havia um violão e nenhuma expectativa; como o tempo em que não havia mais nada de importante, só os dois. É como são as melhores noites ou então os dias que a gente celebra com as 35 doses de rum destinadas apenas às ocasiões mais importantes da vida.

do que aprendi com saramago

O dia todo (e amanhã tem mais) disseram coisas sobre o José Saramago, do talento literário dele às posições políticas controversas, da descrença em Deus dele a sua fábula de quando a morte deixou de matar, dos livros, da vida, das pirraças e das discórdias. Falaram da obra, das frases marcantes, do exílio, de um monte de coisas, e de como o mundo ficou mais cego com a morte dele, referência bonita ao igualmente bonito Ensaio sobre a Cegueira, um livro que – acho – faz do Saramago, como o J.D. Salinger e O Apanhador no Campo de Centeio – um sujeito que não morreu e não vai morrer nunca.

Posturas polêmicas à parte, Saramago ensinou com suas frases imensas (em todos os sentidos) que a gente precisa “recuperar a lucidez, resgatar o afeto, saber da responsabilidade de ter olhos quando os outros os perderam”. Com seus personagens sem nome – a mulher do médico, o ladrão, o primeiro cego, a rapariga de óculos, o velho da venda preta – cegados de repente por uma epidemia que ninguém tampouco sabia qual era, mostrou que, num mundo de cegos, as coisas eram o que verdadeiramente eram. Havia (como há) os cínicos, os maniqueístas e os egoístas e havia (como há, ufa) os que ainda sabem do sentido do substantivo afeto e do verbo dividir, e seguem, gostando e compartilhando, até nos momentos mais caóticos.