gran torino, a coragem e os afetos

Um ano depois, sentei pra rever Gran Torino, filme bonito de doer [mesmo] em que Clint Eastwood parece, mais uma vez, dizer que o mundo faz de tudo para esmagar a virtude, a ética e a beleza. A história começa com um funeral, o da esposa de Walt Kowalski, personagem dele, e termina do mesmo modo melancólico, quase cinza. Durante, ao contrário, deixa esperanças, troca a amargura, a dureza e o mau humor pela ideia, verdadeira e certeira, de que há espaço para a lealdade, apesar de todo o mal.

Kowalski é um sujeito que tem pose de durão, coleciona grosserias e desafetos e cospe na calçada [eca] sempre que possível mas, bem no fundo, carrega uma dor imensa num grande coração. Ele não tem amigos, os filhos apenas cumprem o burocrático ritual de telefonar quando interessa, sugerir um asilo como destino ou visitar em datas festivas, e toda a vida dele cabe no porão de casa: a arma que espanta os bem e os mal intencionados, as ferramentas que servem pra consertar o mundo inteiro menos os buracos dele, as memórias que talvez expliquem tanta amargura.

Escolheu viver sozinho e as escolhas dele, como as minhas, as suas e as de todo mundo, perduram ou desaparecem dependendo da distância, do humor, da raiva, da lembrança, do desejo, da física, da razão, da gravidade, do rancor, da indiferença, da dedicação, da profundidade, do medo e do amor. O peso que carrega desde a guerra é imenso – ele matou não sabe quantos homens em nome de seu país e ganhou medalhas, mas sabe que canhões e minas são tão úteis quanto um zero à esquerda.

Parece compreender, como a gente aprende às vezes da maneira mais dura possível, que escolhas nos fazem esquecer rostos ou carregá-los pro resto dos dias, lutar por um amigo que mal conhecemos ou largar amores para trás mesmo quando ainda são amores, ficar um pouco mais quando, ao que tudo indica, devíamos ir, ou o oposto: voltar para a segurança do quarto e seus silêncios e as paredes e os discos quando a festa ainda segue animada na sala de estar.

Escolhas nos fazem conjugar os verbos mais diversos, apagar, ignorar, silenciar ou dizer, inclusive quando a cabeça pensa um troço e o coração quer outro, insistir ou desistir. Escolhas nos fazem entender, como Walt Kowalski afirma lá pelas tantas, que o mundo nunca foi justo, embora seja preciso resistir, até mesmo às injustiças. O dele é duro, angustiante. Gangues tiram o sossego do bairro decadente em que vive, um subúrbio da Detroit em depressão. Imigrantes de uma comunidade hmong, etnia asiática que apoiou os Estados Unidos na Guerra do Vietnã e fugiu para o Ocidente depois do conflito – escancaram a diferença que os autoritários em geral insistem em ignorar. Muitos de seus contemporâneos estão mortos e, um belo dia, percebe que tem mais em comum com os vizinhos asiáticos do que com a própria família.

Seu carinho é todo do Gran Torino do título do filme, um Ford 1972 guardado na garagem – memória de um passado próspero que oprime o presente, como se as verdades estivessem todas lá e o aqui-agora fosse – alguém já disse e faz muito sentido – uma deterioração da vida. Mas ele não desanima, não desanima diante do caos nem da solidão, do câncer ou da intolerância alheia. Walt Kowalski enfrenta sozinho o ódio que criou dentro de si, mas compartilha esse mesmo ódio quando decide resolver os problemas dos vizinhos, para compensar os próprios pecados. Porque – aquele homem parece nos dizer, com toda a razão – é preciso coragem para enfrentar o mundo, e um bocado de afeto.

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2 comentários sobre “gran torino, a coragem e os afetos

  1. Vi esse filme no cinema exatamente um ano atrás, e saí devastado da sala. A angústia do porvir que não trará nada, mais que a angústia das perdas, pontua tudo.

    Parabéns pela sensibilidade do texto, Ana.

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