na estrada

Ilustração da Mariana Mauro (www.flickr.com/photos/marianamauro)

Eu tinha o sol na cara e a alegria de estar na estrada como se não houvesse mais nada além de ir. Tinha algum tempo livre, meia dúzia de incertezas que precisavam ser pensadas a distância, o livro que faltava pouco para acabar, Chocolápis com Coca Cola e gosto de infância, tinha algumas roupas espremidas na mala de mão e a ideia, antiga e certeira, de que uma viagem, mesmo as menores e menos surpreendentes, nos transforma em alguma outra coisa.

Estrada lembra desapego, lembra “Thelma e Louise” e o espírito de largar tudo para trás e explodir as regras todas, lembra Jack Kerouac e viajar pelo mundo de carona e igualmente quebrar tudo, lembra “Diários de Motocicleta” e as intenções iniciais daquele homem que quis mudar o mundo, lembra “Paris, Texas” e a decisão de caminhar em busca de redenção e do passado, lembra “Estrela Solitária” e aquele desejo imenso de sumir do mapa quando a cabeça dói demais ou quando um amor acaba ou só sumir, simplesmente, porque sim.

Estrada desperta a vontade de ter uma carteira de identidade nova, de telefonar pedindo um emprego novo, de aprender uma língua nova, de ter um bocado a mais de segurança e determinação, de lidar melhor com os imprevistos, de deslumbrar com as novidades, de sentir saudades de verdade, de amar daquele modo puro e profundo que amamos aos cinco anos de idade, sem dores alojadas no peito, sem sapos indigestos no estômago, ar preso nem nada.

Estrada pressupõe ser estrangeiro e um pouco anônimo, estar longe de qualquer rota conhecida e tomar outras como suas, ter referências passageiras que não explicam escolhas nem consequências, mas também não pesam como chumbo grosso, alimentar a ideia, divertida e um pouco assustadora, de que todo ser humano é um pouco como Claire Colburn, de outro filme (“Tudo Acontece em Elizabethtown”) e o mesmo espírito: pôr na mala mapas, discos, calças confortáveis, três lembranças e algum dinheiro, e sair por aí.

Estrada tem cheiro de liberdade, de solidão, de possibilidades, pensamentos desconexos, descobertas inesperadas; desperta um tipo de sentimento, estranho e bom, de pertencer a nenhum lugar, o não-lugar que os pós-modernos da academia gostam de exaltar, o não-lugar que quer dizer exatamente o que parece, vazio, impreciso, duvidoso, o não-saber latitude, longitude ou quilometragem e assim mesmo seguir, sem mapas, só canções e aquele poema.

“De repente você resolve fugir”

É Drummond, o doce e sábio Drummond, fugir sem saber o destino nem a razão (embora a razão de fugir nasça com o fugitivo), fugir sem ter dinheiro nem roupa, rumo à fuga que não se sabe onde acaba, mas começa na ponta dos dedos, fugir quando os outros estiverem dormindo, a pé e de pés nus, levando pão, canivete, lenço, figurinhas difíceis de juntar, mãos livres para pessoas, trabalhos e onças que virão, fugir agora ou nunca, à meia-noite.

À meia-noite em ponto ou nunca.

10 comentários sobre “na estrada

  1. […] o prazo de validade da própria vida. Faz bem estender o prazo de validade da própria vida, cair na estrada com o espírito de recomeçar, redefinir ou redecorar, ser estrangeiro e um pouco an…, estar longe de qualquer rota confortavelmente conhecida, cheirar a liberdade, a solidão, as […]

  2. […] Uma vez, Moacyr Scliar me disse que o primeiro item de sua lista de coisas pra fazer antes de morrer era descobrir o sentido da vida. Viajávamos para a capital secreta do mundo para participar de um debate sobre crônicas, seu fazer e as inspirações, há exatos dois anos. O clima estava frio e seco. A conversa era justo o oposto: amena, fresca, suave, sobre os livros que líamos e a política capixaba [gaúcho, ele queria saber quem mandava e quem obedecia, por assim dizer, no Espírito Santo], sobre canções e o movimento nos jornais [médico, adorava o burburinho das redações], sobre comida boa e algumas ausências, sobre as belezas de cair na estrada e o poema de Drummond. […]

  3. […] Daquela vez eu tinha o sol na cara e a alegria de estar na estrada como se não houvesse mais nada além de ir. Tinha algum tempo livre, meia dúzia de incertezas que precisava pensar a distância, o livro que queria acabar de ler, Chocolápis com Coca Cola e gosto de infância [delícia], roupas espremidas na mochila cinza e a velha crença no poder transformador de uma viagem, até as mais curtas e menos surpreendentes. Imaginava que talvez fosse melhor não voltar, mudar de ares, trocar de hábitos, de endereço, de quase tudo, porque era como se o escritor de terno, gravata e olhos distantes estivesse certo quando determinou que o Brasil é uma república federativa cheia de árvores e pessoas dizendo adeus. […]

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