sobre manuais de instrução

Falávamos sobre a incapacidade de entender os manuais de videocassetes, notebooks, smartphones, micro-ondas, rádios portáteis, toca-disco digital ou qualquer outro equipamento eletrônico envolto em isopor simétrico, plástico-bolha e instruções escritas num idioma que inclui, necessariamente, vogais que não se combinam e consoantes que não se suportam. Daí concluímos: a inabilidade vem de longe, incomoda um bocado, atrapalha a agenda e dificulta o mundo das coisas práticas, mas faz parte de nós da mesma maneira que as canções, os filmes, as perguntas e o gosto pela madrugada.

Vai ver reflete, de fato, certa falta de intimidade com o mundo das coisas, dificuldade de adaptação às convenções, inaptidão para lógicas e racionalidades. Vai ver resume uma habilidade reservada apenas aos homens de negócio, aos matemáticos e aos técnicos, nunca aos românticos, aqueles que guardam os ideias de beleza, liberdade, verdade e acima de tudo amor dos boêmios de Montmartre, suas madrugadas regadas a Absinto e todo o sentimento do mundo concentrado no moinho do Moulin Rouge.

Vai ver é outra coisa ainda, vocação, vontade ou destino daqueles que investiram toda a vida, todo o tempo e quase todo o dinheiro para entender a dor do Nevermind, as escolhas do Apanhador no Campo de Centeio, as distâncias do Lobo da Estepe, os labirintos dos argentinos, as expectativas da Garota da Vitrine, as lembranças da moça cega de Luzes da Cidade ou as entrelinhas daquela história, rosto de anjo, sorriso de demônio e um movimento tão leve e incerto que nem dá pra dizer.

Vai ver tem um quê de idealismo e a quase certeza de que a verdadeira realidade está no mundo das ideias e que, em algum lugar entre a avenida dois e a rua quatro, existe um livro sagrado que explique os finais infelizes, justifique as decisões equivocadas, esclareça as aventuras feitas de saudade, signo, movimento, silêncio, cama, vício e interrogação, e as histórias feitas de samba, cinema, sombra, leveza, verdade, calma e, possivelmente, algumas obsessões.

Vai ver não é nada disso, nem falta de intimidade, dificuldade ou inaptidão para lógicas e racionalidades, nem romantismo em excesso, vocação, vontade ou destino, nem Nevermind, Apanhador no Campo de Centeio, Lobo da Estepe ou Garota da Vitrine, nem idealismo ou um manual de instruções para a vida que ensine o que fazer e o que dizer, quando ficar e quando partir, em quem acreditar e de quem duvidar. Vai ver é apenas o fato, consumado como a canção do sujeito que julga o mundo e vai embora, de que em determinados momentos a gente não tem escolha.

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3 comentários sobre “sobre manuais de instrução

  1. Vai ver o romantismo que alguns trazem dentro de si carrega tanto de ansiedade pela consumação ou lembrança de um afeto guardado num artefato tecnológico que, uma vez dada a proximidade desse sentimento, tudo aquilo que dele nos separa (manuais, instruções, códigos) vem a se tornar um fardo insuportável, tedioso.

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