troque um livro seu pelo meu, o retorno

A chegada do Octaedro de Julio Cortázar, ontem à tardinha (obrigada, Leo), me fez voltar a divulgar a campanha Troque um Livro seu Pelo Meu. Funciona assim:

Primeiro você manda um livro legal (conto, crônica, romance, biografia, jornalismo, música ou cinema) em bom estado de conservação para a Caixa Postal 527, CEP 29060-973, Vitória (ES). Daí escreve um email para ana.laura.nahas@gmail.com com o endereço em que quer receber um exemplar do meu livro de crônicas Todo Sentimento, uma seleção de 30 textos sobre arte, política, fatos cotidianos e histórias sobre amores, amigos, memórias, encontros e desencontros, divididos em cinco capítulos: Os Amores, As Escolhas, As Palavras, O Tempo e A Imaginação. Em 10 dias, eu mando ele pra você pelo Correio e tudo resolvido. Sem intermediários nem cartão de crédito.

Até agora, deu certo.

a propósito das almas erradas

Alma errada
Por Mario Quintana

Há coisas que a minha alma já mortificada não admite:
assistir novelas de TV, ouvir música pop
um filme apenas de corridas de automóvel
uma corrida de automóvel num filme
um livro de páginas ligadas

Porque, sendo bom,
a gente abre sofregamente a dedo:
espátulas não há…

E quem é que hoje faz questão de virgindades…

E quando minha alma estraçalhada a todo instante pelos telefones
fugir desesperada
me deixará aqui, ouvindo o que todos ouvem,
bebendo o que todos bebem,
comendo o que todos comem.

A estes, a falta de alma não incomoda.

[Desconfio até que minha pobre alma fora destinada ao habitante de outro mundo].

E ligarei o rádio a todo o volume,
gritarei como um possesso nas partidas de futebol,
seguirei, irresistivelmente,
o desfilar das grandes paradas do Exército.

E apenas sentirei, uma vez que outra,
a vaga nostalgia de não sei que mundo perdido…

cold souls (ou o homem que alugou sua alma)

Aí que o Paul Giamatti (Sideways, cheers) interpreta ele mesmo em Cold Souls, um ator em crise existencial que decide contratar uma inovadora empresa que extrai a alma dos agoniados. Sua alma é, literalmente, um grão de bico, repleta de lembranças, medos e afetos, como deve ser a minha, a sua, a de todo mundo. Para substituí-la, porque julga não ser possível atuar sem alma, ele aluga a de um poeta russo – mais intenso, mais alucinado e mais baratinado com as pressões do mundo e o vazio da vida ainda.

De cara, lembra o Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, filme dos ex-enamorados que decidem se tirar um da memória do outro porque o amor que tinham, apesar de todas as diferenças do mundo (ele tímido, contido e aborrecido; ela impetuosa e cheia de intensidades), virou descontrole, não serve mais. Depois, lembra Quero Ser John Malkovich, a fantástica aventura de enxergar o mundo pelos olhos alheios – lá pelas tantas, a alma de grão de bico de Giamatti vai parar na Rússia, no corpo de uma atriz de talento duvidoso e cérebro idem.

Assim, com um pouco de cada um e outro tanto de si mesmo, Cold Souls mistura humor negro, metafísica, dilema e vazio existencial para tratar um pouco da velha – e longuíssima (alguém tem pistas?) – procura pela compreensão da alma humana.