da série releituras

– Está dizendo isso a sério? – perguntou.

– Desde que nasci – disse Florentino Ariza – não disse uma única coisa que não fosse a sério.

O comandante olhou Fermina Daza e viu em suas pestanas os primeiros lampejos de um orvalho de inverno. Depois olhou Florentino Ariza, seu domínio invencível, seu amor impávido, e se assustou com a suspeita tardia de que é a vida, mais que a morte, a que não tem limites.

– E até quando acredita o senhor que podemos continuar nesse ir e vir do caralho? – perguntou.

Florentino Ariza tinha a resposta preparada havia cinquenta e três anos, sete meses e onze dias com as respectivas noites.

– Toda a vida – disse.

(Gabriel García Márquez, O Amor nos Tempos do Cólera)

gran torino, a coragem e os afetos

Um ano depois, sentei pra rever Gran Torino, filme bonito de doer [mesmo] em que Clint Eastwood parece, mais uma vez, dizer que o mundo faz de tudo para esmagar a virtude, a ética e a beleza. A história começa com um funeral, o da esposa de Walt Kowalski, personagem dele, e termina do mesmo modo melancólico, quase cinza. Durante, ao contrário, deixa esperanças, troca a amargura, a dureza e o mau humor pela ideia, verdadeira e certeira, de que há espaço para a lealdade, apesar de todo o mal.

Kowalski é um sujeito que tem pose de durão, coleciona grosserias e desafetos e cospe na calçada [eca] sempre que possível mas, bem no fundo, carrega uma dor imensa num grande coração. Ele não tem amigos, os filhos apenas cumprem o burocrático ritual de telefonar quando interessa, sugerir um asilo como destino ou visitar em datas festivas, e toda a vida dele cabe no porão de casa: a arma que espanta os bem e os mal intencionados, as ferramentas que servem pra consertar o mundo inteiro menos os buracos dele, as memórias que talvez expliquem tanta amargura.

Escolheu viver sozinho e as escolhas dele, como as minhas, as suas e as de todo mundo, perduram ou desaparecem dependendo da distância, do humor, da raiva, da lembrança, do desejo, da física, da razão, da gravidade, do rancor, da indiferença, da dedicação, da profundidade, do medo e do amor. O peso que carrega desde a guerra é imenso – ele matou não sabe quantos homens em nome de seu país e ganhou medalhas, mas sabe que canhões e minas são tão úteis quanto um zero à esquerda.

Parece compreender, como a gente aprende às vezes da maneira mais dura possível, que escolhas nos fazem esquecer rostos ou carregá-los pro resto dos dias, lutar por um amigo que mal conhecemos ou largar amores para trás mesmo quando ainda são amores, ficar um pouco mais quando, ao que tudo indica, devíamos ir, ou o oposto: voltar para a segurança do quarto e seus silêncios e as paredes e os discos quando a festa ainda segue animada na sala de estar.

Escolhas nos fazem conjugar os verbos mais diversos, apagar, ignorar, silenciar ou dizer, inclusive quando a cabeça pensa um troço e o coração quer outro, insistir ou desistir. Escolhas nos fazem entender, como Walt Kowalski afirma lá pelas tantas, que o mundo nunca foi justo, embora seja preciso resistir, até mesmo às injustiças. O dele é duro, angustiante. Gangues tiram o sossego do bairro decadente em que vive, um subúrbio da Detroit em depressão. Imigrantes de uma comunidade hmong, etnia asiática que apoiou os Estados Unidos na Guerra do Vietnã e fugiu para o Ocidente depois do conflito – escancaram a diferença que os autoritários em geral insistem em ignorar. Muitos de seus contemporâneos estão mortos e, um belo dia, percebe que tem mais em comum com os vizinhos asiáticos do que com a própria família.

Seu carinho é todo do Gran Torino do título do filme, um Ford 1972 guardado na garagem – memória de um passado próspero que oprime o presente, como se as verdades estivessem todas lá e o aqui-agora fosse – alguém já disse e faz muito sentido – uma deterioração da vida. Mas ele não desanima, não desanima diante do caos nem da solidão, do câncer ou da intolerância alheia. Walt Kowalski enfrenta sozinho o ódio que criou dentro de si, mas compartilha esse mesmo ódio quando decide resolver os problemas dos vizinhos, para compensar os próprios pecados. Porque – aquele homem parece nos dizer, com toda a razão – é preciso coragem para enfrentar o mundo, e um bocado de afeto.

o primeiro boteco a gente nunca esquece

Agora há pouco, enquanto escrevia (ligeiramente atrasada) a crônica O Antídoto da Madrugada (*), que trata de como os botecos, o tempo, as perguntas e as canções – inclusive as do Lulu Santos – fazem do mundo um lugar mais saudável, pensei na lembrança de “botecagem” mais antiga que tenho na vida. Era assim, bonito de tão simples: nos dias de folga na escola ou de dentista (porque eu odiava dentista, daí funcionava como uma compensação), minha mãe me levava pra comer sanduíche no balcão das Lojas Americanas, feito só de queijo, presunto e um molhinho “secreto” num pão prensado, quentinho, cercado de batatas chips e com um copão de Coca Cola.

Eu era feliz, e acho que sabia.

(*) A crônica, regada a coxinha, gim com água tônica, caipirinha de abacaxi, Jack Peach e observações sobre o mundo, a vida e alguns bares de Vitorinha e Vila Velhinha, vai estar na revista do prêmio Prazer&Cia, que circula com A Gazeta no dia 2 de julho.

na estrada

Ilustração da Mariana Mauro (www.flickr.com/photos/marianamauro)

Eu tinha o sol na cara e a alegria de estar na estrada como se não houvesse mais nada além de ir. Tinha algum tempo livre, meia dúzia de incertezas que precisavam ser pensadas a distância, o livro que faltava pouco para acabar, Chocolápis com Coca Cola e gosto de infância, tinha algumas roupas espremidas na mala de mão e a ideia, antiga e certeira, de que uma viagem, mesmo as menores e menos surpreendentes, nos transforma em alguma outra coisa.

Estrada lembra desapego, lembra “Thelma e Louise” e o espírito de largar tudo para trás e explodir as regras todas, lembra Jack Kerouac e viajar pelo mundo de carona e igualmente quebrar tudo, lembra “Diários de Motocicleta” e as intenções iniciais daquele homem que quis mudar o mundo, lembra “Paris, Texas” e a decisão de caminhar em busca de redenção e do passado, lembra “Estrela Solitária” e aquele desejo imenso de sumir do mapa quando a cabeça dói demais ou quando um amor acaba ou só sumir, simplesmente, porque sim.

Estrada desperta a vontade de ter uma carteira de identidade nova, de telefonar pedindo um emprego novo, de aprender uma língua nova, de ter um bocado a mais de segurança e determinação, de lidar melhor com os imprevistos, de deslumbrar com as novidades, de sentir saudades de verdade, de amar daquele modo puro e profundo que amamos aos cinco anos de idade, sem dores alojadas no peito, sem sapos indigestos no estômago, ar preso nem nada.

Estrada pressupõe ser estrangeiro e um pouco anônimo, estar longe de qualquer rota conhecida e tomar outras como suas, ter referências passageiras que não explicam escolhas nem consequências, mas também não pesam como chumbo grosso, alimentar a ideia, divertida e um pouco assustadora, de que todo ser humano é um pouco como Claire Colburn, de outro filme (“Tudo Acontece em Elizabethtown”) e o mesmo espírito: pôr na mala mapas, discos, calças confortáveis, três lembranças e algum dinheiro, e sair por aí.

Estrada tem cheiro de liberdade, de solidão, de possibilidades, pensamentos desconexos, descobertas inesperadas; desperta um tipo de sentimento, estranho e bom, de pertencer a nenhum lugar, o não-lugar que os pós-modernos da academia gostam de exaltar, o não-lugar que quer dizer exatamente o que parece, vazio, impreciso, duvidoso, o não-saber latitude, longitude ou quilometragem e assim mesmo seguir, sem mapas, só canções e aquele poema.

“De repente você resolve fugir”

É Drummond, o doce e sábio Drummond, fugir sem saber o destino nem a razão (embora a razão de fugir nasça com o fugitivo), fugir sem ter dinheiro nem roupa, rumo à fuga que não se sabe onde acaba, mas começa na ponta dos dedos, fugir quando os outros estiverem dormindo, a pé e de pés nus, levando pão, canivete, lenço, figurinhas difíceis de juntar, mãos livres para pessoas, trabalhos e onças que virão, fugir agora ou nunca, à meia-noite.

À meia-noite em ponto ou nunca.

viagem

Acontece mais ou menos assim:

Primeiro a gente arruma as malas e pensa na utilidade de tantos vestidos, de tantas bolsas, de tantos sapatos e de nove cachecóis de cores diferentes numa cidade que tem só quatro dias de inverno. A gente pensa nas razões de tantos papéis, e descobre que precisa de cada um deles, ou acha que precisa, então precisa mesmo. Pensa nos motivos de haver tantas panelas no armário quando o fogão tem apenas quatro bocas e na real necessidade das posses que aprendemos a ter, quando devíamos ser e sentir mais que ter ou querer ter.

Depois, enquanto o comissário explica os procedimentos de segurança e garante que, em caso de despressurização da cabine, máscaras de oxigênio cairão automaticamente sobre as nossas cabeças [ai] e que o assento é flutuante para um eventual pouso na água, a gente pensa que não quer morrer de acidente de avião, virar picadinho ou boiar no Oceano Atlântico, porque ainda tem muito pra fazer da vida.

Daí a gente enumera mentalmente a lista inteira de tarefas, realizações, vontades e expectativas que não gostaria de ver interrompidas por uma explosão aérea, e logo olha pela janela e, do alto, pensa na cidade em que vive, de quantas maneiras e de que tanto gostamos das suas curvas, das suas minúcias, da sua cor.

A gente pensa que Vitória é azul, Londres é cinza como São Paulo, Paris é rosa, Salvador é vermelho, um mundo inteiro de tons que dizem muito sobre suas intenções, acolhidas e possibilidades. Pensa no quanto mudou, no que levou, no que deixou para trás e no quanto cresceu naquele endereço, inclusive no incômodo crescimento lateral que parece impossível perder depois dos 30.

Daí a gente viaja, encontra feições diferentes, comidas diferentes, sotaques diferentes e, dependendo do destino, sol o ano inteiro. Se tiver disposição e um pouco de sorte, vive a lei natural dos encontros que aquele disco ensinou [por ela a gente deixa e recebe um tanto] e traz amigos novos na mala, ou pelo menos histórias para lembrar. Quando volta, a gente lembra do quanto riu, do quanto ouviu, do quanto falou, do quanto dançou depois de duas doses de Black Label com Coca Cola e do quanto entendeu que as questões da humanidade são muitíssimo parecidas, aqui, ali, em qualquer lugar, com quase nada de variação.

A saber: falta de dinheiro, traumas do passado e coração partido, não necessariamente nessa ordem.

Então a gente volta pras coisas que deixou, exatamente como o Rei, abre a porta devagar, deixa a luz entrar primeiro, ilumina o passado e entra. Volta pro aconchego, pras plantas da varanda, pros livros que esperam na fila da leitura perdida, pros discos displicentes que esperam as madrugadas e pras madrugadas em si. Volta pros projetos de ordens diversas, trabalho, afetos, corpo, cabeça, vários. Volta porque domingo tem samba e tem encontro. Volta porque voltar é bom, e a gente sempre volta um pouco diferente.

as melhores coisas do mundo

Lembrei de uma pergunta (com a respectiva resposta) e de um poema enquanto via As Melhores Coisas do Mundo, filme singelo que lembra como é bom não desistir de sonhar mesmo quando parece que não existe outra alternativa e como é preciso reinventar a vida, todo dia, pra não cair numa rotina cheia de obrigações e quase nada de prazer.

A pergunta:
Precisamos renunciar aos sentimentos, às vontades e aos entusiasmos para dar expediente no trabalho, pagar o condomínio e conviver socialmente com outros adultos com obrigações semelhantes e às vezes desejos igualmente reprimidos?

A respectiva resposta (acho):
Não, não precisamos (viva).

E o poema (O Haver, Vinicius de Moraes):
Resta, acima de tudo, essa capacidade de ternura
Essa intimidade perfeita com o silêncio
Resta essa voz íntima pedindo perdão por tudo
– Perdoai-os! Porque eles não têm culpa de ter nascido…

Resta esse antigo respeito pela noite, esse falar baixo
Essa mão que tateia antes de ter, esse medo
De ferir tocando, essa forte mão de homem
Cheia de mansidão para com tudo quanto existe.

Resta essa imobilidade, essa economia de gestos
Essa inércia cada vez maior diante do Infinito
Essa gagueira infantil de quem quer exprimir o inexprimível
Essa irredutível recusa à poesia não vivida.

Resta essa comunhão com os sons, esse sentimento
Da matéria em repouso, essa angústia da simultaneidade
Do tempo, essa lenta decomposição poética
Em busca de uma só vida, uma só morte, um só Vinicius.

Resta esse coração queimando como um círio
Numa catedral em ruínas, essa tristeza
Diante do cotidiano; ou essa súbita alegria
Ao ouvir passos na noite que se perdem sem história.

Resta essa vontade de chorar diante da beleza
Essa cólera em face da injustiça e o mal-entendido
Essa imensa piedade de si mesmo, essa imensa
Piedade de si mesmo e de sua força inútil.

Resta esse sentimento de infância subitamente desentranhado
De pequenos absurdos, essa capacidade
De rir à toa, esse ridículo desejo de ser útil
E essa coragem para comprometer-se sem necessidade.

Resta essa distração, essa disponibilidade, essa vagueza
De quem sabe que tudo já foi como será no vir-a-ser
E ao mesmo tempo essa vontade de servir, essa
Contemporaneidade com o amanhã dos que não tiveram ontem nem hoje.

Resta essa faculdade incoercível de sonhar
De transfigurar a realidade, dentro dessa incapacidade
De aceitá-la tal como é, e essa visão
Ampla dos acontecimentos, e essa impressionante

E desnecessária presciência, e essa memória anterior
De mundos inexistentes, e esse heroísmo
Estático, e essa pequenina luz indecifrável
A que às vezes os poetas dão o nome de esperança.

Resta esse desejo de sentir-se igual a todos
De refletir-se em olhares sem curiosidade e sem memória
Resta essa pobreza intrínseca, essa vaidade
De não querer ser príncipe senão do seu reino.

Resta esse diálogo cotidiano com a morte, essa curiosidade
Pelo momento a vir, quando, apressada
Ela virá me entreabrir a porta como uma velha amante
Mas recuará em véus ao ver-me junto à bem-amada…

Resta esse constante esforço para caminhar dentro do labirinto
Esse eterno levantar-se depois de cada queda
Essa busca de equilíbrio no fio da navalha
Essa terrível coragem diante do grande medo, e esse medo
Infantil de ter pequenas coragens.