a notícia do dia (ou o mundo não é mais o mesmo)

Vampiro de Crepúsculo supera Tio Patinhas na lista dos mais ricos

O doutor Carlisle Cullen, personagem da série “Crepúsculo”, é o homem mais rico do mundo, segundo a revista Forbes. Cullen superou Tio Patinhas, que tem 1 bilhão de dólares a menos e liderava a lista desde que o mundo é mundo e a Forbes faz seu ranking anual de milionários do lado de lá. Com uma fortuna estimada em 34,5 bilhões de dólares, o patriarca da família Cullen tem 370 anos, razão que, segundo a Forbes, pode ajudar o fato de sua fortuna ser maior do que a do tio do Pato Donald. Também fazem parte da lista Riquinho (11,5 bilhões de dólares), Tony Stark (8,8 bilhões), Jed Clampett, da Família Buscapé (US$ 7,2 bilhões), o senhor Burns dos Simpsons (1,3 bilhão), Bruce Wayne, Artemis Fowl, Chuck Bass e até o grande Jay Gatsby.

Aqui tem a lista completa.

sobre lembranças, a propósito

A verdade é que as coisas acabam, os amores, as esperas, as noites felizes, os doces da caixa, as histórias, os livros, o Domec e as dores. As esperanças acabam, e as revoltas, as reformas e as revoluções. O dinheiro de vez em quando acaba, e também os créditos, as crenças e as razões para querer alguém que não quer de volta.

As viagens um dia acabam, Rio, Havana, Paris, São Tomé das Letras, Marataízes, Ribeirão Preto, Nova York, las tardecitas de Buenos Aires, Londres cinza cerveja parede vermelha comida tailandesa e o boteco dos brasileiros na escola de estudos econômicos, qualquer lugar de ônibus, trem, carro ou de avião e a gente depois chegando em casa, desfazendo as malas, voltando diferente pra vida que levava antes. A verdade é que até as canções acabam.

“Pois já não vales nada
És página virada
Descartada do meu folhetim”

O inverno acaba e o calor (oba) acorda o corpo inteiro de manhã, os olhos cansados de ontem à noite, as plantas da varanda, as músicas de antes de dormir, os pensamentos desconexos, as descobertas inesperadas, as obrigações apressadas, louça pra lavar, lixo pra jogar fora, contas pra pagar, poeira pra tirar, aula de pilates, revista e jornal, amor, trabalho e uma sexta-feira inteira de sono atrasado, risco, família, sentido, promessa, gratidão, bicicleta na praia.

Até as histórias acabam, todas, as que deixam de ser minhas neste momento, as que me emprestam e igualmente passam a ser de quem lê, e todo o resto que cabe no sol. O tempo acaba, e às vezes também a imaginação. A verdade é que até a vida acaba. Mas a memória é poderosa, enche os vazios e – com exceção daquelas que doem ou aborrecem, e a gente tem vontade de brincar com elas de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças – ameniza o presente quando nem cachaça nem aspirina nem morfina fazem o buraco parecer menor.

Ouvi dizer estes dias que a memória faz as pessoas conhecerem o verdadeiro valor dos momentos, e daí, vai ver, a gente entende no dia seguinte a importância daquele abraço, no mês seguinte percebe o quanto gostou daquela noite, na estação seguinte assimila as palavras do último outono, vive de novo e com outro olhar as mesmíssimas coisas, com outro peso (ou sem peso), quando lembra do cheiro (baunilha), da cor, dos detalhes (ou não lembra, e ri do próprio esquecimento), quando sente falta.

“Se você ligar o rádio
Todas as canções irão dizer:
Give I so long, my love”

Um dia, quando percebe o muito que fica quando as coisas acabam, as faltas incomodam menos e (ufa) a gente vive melhor.

Vitória, 4 de julho de 2009

tokyo

tokyo

Tokyo é o seguinte: um pequeno tratado sobre a solidão, a indecisão, o caos, a falta de espaço, a ausência de diálogo e o cinza, dividido em três episódios. Interior Design, de Michel Gondry, ganhou meu coração. Gondry, afinal, pelo menos para mim, é afeto em estado bruto. Adoro Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, o filme dos ex-enamorados que decidem se apagar um do cérebro do outro, porque o amor acabou, virou ódio concentrado, estas coisas que acontecem – e daí não mais calma, não mais riso, pisar em ovos, tentar uma duas três mil vezes, gosto amargo, dor no peito, tentar de novo uma tentativa frustrada, insistir e, depois de processos mais ou menos dolorosos e mais ou menos civilizados, desistir. Adoro A Natureza Quase Humana, uma inspirada sátira à [muito em tese] civilização: gente que trai, trapaceia, reprime, julga pelas aparências, joga fora a própria alma para parecer agradável aos olhos dos outros, estas coisas que acontecem. Adoro aquele videoclipe verde-psicodélicode do Les Cailloux.

Adoro, de modo que até repito o verbo adorar, como Bandeira e Teodora.

[Intransitivo
Teadoro, Teodora].

Com Brilho Eterno, entendi o bom de ter até as piores lembranças, apesar dos dias em que a gente queria que houvesse ali, na esquina da Ludwic Macal com a Antônio Basílio, um escritório especializado em limpar memórias por mapeamento cerebral, eliminar, num passe de mágica, os arrependimentos, as lágrimas, as tristezas, as saudades, as perdas e os erros, uma noite ingrata ou um mês inteiro, uma conversa triste, uma madrugada turbulenta ou um ano todo. Com A Natureza Quase Humana, lembrei do quanto o mundo é trágico, engraçado, complexo, injusto, curioso e engraçado de novo e bonito e feio, e às vezes tudo simetricamente misturado, demasiadamente humano, naturalmente bossa nova e um pouco rock’n’roll. Com Interior Design não foi nem uma coisa nem outra, só uma comoçãozinha inexplicável com a menina quase invisível que, numa noite de sonhos intraquilos como aqueles em que Gregor Samsa viveu antes de ser travestido em barata, transformou-se literalmente em cadeira, descobrindo, então, um sentido da vida.

carta ao rei

roberto-carlos

Querido Roberto,

Disseram, com toda a razão, que o tempo passa e você não muda. Que seu corte de cabelo continua o mesmo, embora os fios estejam mais grisalhos. Que você continua jogando as mesmas 144 rosas vermelhas e 36 rosas brancas para a plateia e continua chamando o Erasmo de amigo de fé, irmão camarada, embora o mundo esteja um bocado diferente e os amigos às vezes não se importem e às vezes até morram na gente.

Você continua cantando Jesus Cristo do mesmo modo, enquanto a novela das oito passou a começar às nove e o Caetano passou a tocar rock. Emoções também não mudou, você canta igualzinho, entortando o microfone enquanto fala do momento lindo que vive quando está ali, as mesmas emoções sentindo, tantas já vividas, momentos que não esqueceu, detalhes de uma vida, histórias que contou, amigos que ganhou, saudades que sentiu partindo e às vezes que deixou alguém te ver chorar sorrindo.

Disseram que que você é vintage, Roberto, que é como uma receita de bolo de nossas avós e que, por ser tão igual num mundo cada dia mais diferente, traz tranquilidade e um certo sabor de infância. Talvez você seja mesmo, com manias e tudo. Você pode, Roberto, mas não precisava censurar o livro daquele moço, isso não precisava. Você sabe que é preciso saber viver, gosta da velha calça desbotada ou coisa assim, revelou para um fã sua paixão pelo Palmeiras do meu pai, meu irmão e agora meu sobrinho e, ao que parece, até parou de negar as raízes que tem na capital secreta – mas acho que você ainda não concorda com o velho Braga quando dizia que, modéstia à parte, era de Cachoeiro de Itapemirim.

Você continua dizendo que prazeeeeeer uma pausinha rever vocês no começo dos seus shows, qualquer que seja o show e quaisquer que sejam os vocês que você está revendo – às vezes vendo, pela primeira vez na vida. Você pode, Roberto. Eu, sempre que posso, vou com a minha mãe ver seus shows. Ela adora [eu também], dos Detalhes às Curvas da Estrada de Santos, Quero que Tudo Vá Pro Inferno [às vezes também quero], Cavalgada [estrelas mudam de lugar e aquela coisa toda, não precisa se envergonhar, Roberto], as duas com nome de carro, Além do Horizonte e o resto da lista, que é exatamente a mesma há sabe-se lá quanto tempo. Você pode.

A gente só queria ouvi-lo cantar aquele pobre blues e nada mais.

É tão simples…

a notícia do dia

Roberto Carlos diz que está em busca da ‘canção perfeita’

O cantor Roberto Carlos declarou nesta quarta à Associated Press, em Miami, que gostaria de fazer uma grande canção romântica, “uma canção que diga coisas que ainda não foram ditas”. Roberto Carlos, que completa 69 anos no próximo dia 19 (parabéns pra ele), vai passar por Nova York, Los Angeles e outras cidades dos Estados Unidos com a turnê que celebra seus 50 anos de carreira.

eu, você e todos nós

De madrugada, numa destas insônias, lembrei do filme da Miranda July, aquele que alguém disse que é [e acho que é mesmo] um filme de almas solitárias em busca de contato com o mundo, palavras soltas sem mensagem aparente, diálogos que não estabelecem encontros, comunicação cheia de ruídos e interferências, um filme que talvez seja como a própria vida. Um peixe laranja e sua morte anunciada, uma queimadura na mão com ares de ritual, um encontro embaraçoso num banco de praça, a mulher que, tão logo se separa, volta a usar a camisola detestada pelo ex-marido [estes pequenos escapes que a gente comete..], a comparação de uma caminhada pela calçada a uma vida inteira de amor… qualquer coisa serve pra reforçar a aparente tese de que tem algo fantástico até nos fatos mais banais. E vai ter tem mesmo.

das coisas inconfessáveis

Primeiro é preciso desprendimento, deixar de lado a vergonha e o peso, esquecer censuras, reprimendas, reprovações e repreensões, acreditar com o corpo inteiro na ideia de que a palavra diversão, como a música e os dias de sol, só pode ter um sentido bom, nunca o contrário. Depois é preciso humor, investir no riso e no esquecimento, confiar com a cabeça inteira na certeza de que pouca coisa na vida facilita mais o resto todo do que achar graça de si mesmo.

Daí fica fácil. Você sorri, acerta a coluna, respira fundo e conta, de uma maneira mais ou menos bonita, de um jeito mais ou menos complicado, de um modo mais ou menos ligeiro, racional e objetivo. Conta que não vive sem Lulu Santos e Zizi Possi [menos as versões pro italiano] ou que adora “Jaded” do Aerosmith, que ouve, dança e sabe absolutamente todas as letras das Spice Girls ou, sendo sincero como não se pode ser, que não perde um show dos Engenheiros do Hawaii.

Conta que por ele você é que nem aquela canção do tango no teto, menos a parte de tomar banho gelado no inverno. Conta que sente saudades do sotaque dele, dos óculos, da camiseta de algodão e das cuecas à mostra pra jogar charme. Conta dos medos próximos, escorpião, barata, solidão, dívida no cartão de crédito e escuro, e daqueles tão distantes quanto Salinópolis, Ametista do Sul ou Aparecida do Taboado. Conta das madrugadas, das vontades e do amor guardado dentro do pote de guardar amores.

Conta quase tudo.

Você sorri, acerta a coluna, respira fundo e conta, de uma maneira mais ou menos bonita, de um jeito mais ou menos complicado, de um modo mais ou menos ligeiro, racional e objetivo, que não sai do carro enquanto o rádio não termina de tocar aquela do Roupa Nova [pra que tanta pressa de chegar?].

Conta que foi ver a apresentação da Joana no velho teatro do Centro quando seu namorado era um sujeito ocupado que não mandava notícias nem dava um sinal e que – ai ai – também adora o Fábio Júnior. Conta até o que não devia, inclusive algumas tristezas dos anos passados e os próprios defeitos [alguém disse, acho que Clarice Lispector, que cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, porque nunca se sabe qual é o defeito que sustenta o nosso edifício inteiro].

Você sorri, acerta a coluna, respira fundo e conta que já gosta, apesar do pouco tempo, mas que tem vontades às vezes excessivas e demandas às vezes exageradas. Conta das alegrias de agora e de algumas dúvidas sobre logo depois. Conta quase tudo, sem peso ou vergonha, sem censura ou reprovação, sem maldade ou mau humor. Você confessa as coisas, e pronto.