tpm

Para todas as mulheres do mundo.

ilustração da mariana mauro (www.flickr.com/photos/marianamauro)

Sabe aqueles dias em que a pele parece mais flácida e as olheiras, mais profundas? Um arranhão na perna direita, latejante, irritante, deixa claro que só pretende cicatrizar no Dia de São Nunca, você tem um maldito pelo encravado, uma maldita espinha no nariz, um maldito corte no dedo e – menos, muito menos poético que naquela canção – a maldita ponta de um torturante band-aid no calcanhar.

Você comeu demais e continua com fome. A novela das oito ainda nem começou e você, completamente exausta, não aguenta nem mais manter os olhos abertos. As ideias vem e vão, embora nenhuma delas seja forte o bastante para apagar a dor, as lembranças, a raiva contra as injustiças de todo tipo, as lágrimas, muito menos ainda o cansaço, aquele mesmo, que faz a pele mais flácida, as olheiras mais profundas.

Você atrasa e o tempo não passa, trabalha e as coisas não encaixam, anda e o caminho não acaba, para e os hormônios não descansam, e haja paciência pra tanto telefone, tanta pergunta, tanta conversa, tanta cobrança. Você repete as expressões de sempre, as expressões de sempre, as expressões de sempre, e não sabe o que ouvir, porque a Sinfonia 40 é alegre demais e o Réquiem, alegre de menos, o Storytelling é quieto demais e o If You Feeling Sinister, movimentado demais, o novo Caetano é rock demais e o novo rock é quase todo bobo demais.

Você lembra que não disse tudo o que queria dizer naquele encontro apressado, e acha que às vezes fala demais, mas só consegue pensar que precisa (ou acha que precisa), em regime de urgência urgentíssima, de uma lipoescultura completa, de uns miligramas de toxina botulínica e de seis séries de abdominal nível oito, de tal modo que coisas que você nem sabe direito o que são, como lipoescultura, toxina botulínica e abdominais nível oito, viram ideia fixa.

Você pedala para queimar as calorias de dois hambúrgueres, alface, queijo, molho especial, cebola e picles no pão com gergelim, e nada; aumenta o volume da TV, e nada; telefona para a amiga que jura que mudar os móveis de lugar ajuda a passar o tempo e as crises, e nada, nada. Quando o dia termina, e não daquele modo que terminam os melhores dias, o travesseiro parece estreito demais e o colchão bem que podia ser melhor; não há abraço que resolva nem olhar nem canção, e é preciso dormir, mas quem consegue?

É TPM mesmo, e ai de quem ousar dizer que é frescura.

(Vitória, 22 de março de 2006)

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