céus

Dizem que o céu dos que acreditam é azul. Lá, segundo os livros sagrados, há muitas moradas, coisas que os olhos não viram e os ouvidos não ouviram, silêncio por quase meia hora depois de aberto o sétimo selo e todo o repouso do mundo. Dizem também do céu dos que acreditam que ele não é pra todos. Só os virtuosos, os bem aventurados e os arrependidos de todo o coração podem entrar, e apenas depois de um processo longo de reflexão, purificação e autopunição, não necessariamente nessa ordem.

Dizem ainda que os apegados vão para um céu diferente dos desapegados, aqueles – bendito sejam – capazes de viver segundo os princípios da leveza, alheios aos preconceitos que envenenam o mundo, longe dos desafetos que envenenam o corpo, distantes do excesso de razão que envenena o espírito, livres da necessidade de estar perto de pessoas e de coisas, livres como aquela tarde, livres como no poema da palavra que o sonho humano alimenta, que não há ninguém que explique nem ninguém que não entenda.

Daí imagino: Chet Baker, Frank Sinatra, John Coltrane e Nina Simone tocam no céu dos desapegados, nos dias de festa tem samba rock, samba de raiz e às vezes silêncio, diariamente, sem hora marcada, mas provavelmente de madrugada, eles cultuam o momento e as ausências, com absoluta devoção. Quase não comem e choram ao ouvir a quinta sinfonia, exaustivamente reescrita por Beethoven, liberdade, igualdade e fraternidade em dó menor, tensão, solenidade, o terceiro movimento e o gran finale, irretocável.

[Parece bom].

Mas também imagino que o céu dos apegados deve ser divertido, do mesmo modo ou quase. É ainda um céu, afinal, destinado aos que viveram com polidez, fidelidade, prudência, temperança, coragem, justiça, generosidade, compaixão, misericórdia, gratidão, humildade, simplicidade, tolerância, pureza, doçura, boa-fé, humor e amor, mas tiveram, apesar das virtudes do Pequeno Tratado do filósofo francês, um bocado de necessidade, necessidade de presenças e palavras, necessidade de discos e papéis, de abraço apertado, satisfações constantes e encontro sempre que possível.

Daí imagino, com alguma ajuda: no céu dos apegados tem bichos de estimação, plantas e chocolate alpino pra comer em prestações. Tem esmalte pra pintar as unhas – Tomate pros dias de animação, Misturinha ou Renda pros ao contrário – e dias de sol. Tem um pouco de tudo, um monte de nada e, às vezes, personagem de novela mexicana. Tem música, suco de pêssego com tangerina e algum ciúme – afinal, são apegados, fazer o quê?

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