tokyo

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Tokyo é o seguinte: um pequeno tratado sobre a solidão, a indecisão, o caos, a falta de espaço, a ausência de diálogo e o cinza, dividido em três episódios. Interior Design, de Michel Gondry, ganhou meu coração. Gondry, afinal, pelo menos para mim, é afeto em estado bruto. Adoro Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, o filme dos ex-enamorados que decidem se apagar um do cérebro do outro, porque o amor acabou, virou ódio concentrado, estas coisas que acontecem – e daí não mais calma, não mais riso, pisar em ovos, tentar uma duas três mil vezes, gosto amargo, dor no peito, tentar de novo uma tentativa frustrada, insistir e, depois de processos mais ou menos dolorosos e mais ou menos civilizados, desistir. Adoro A Natureza Quase Humana, uma inspirada sátira à [muito em tese] civilização: gente que trai, trapaceia, reprime, julga pelas aparências, joga fora a própria alma para parecer agradável aos olhos dos outros, estas coisas que acontecem. Adoro aquele videoclipe verde-psicodélicode do Les Cailloux.

Adoro, de modo que até repito o verbo adorar, como Bandeira e Teodora.

[Intransitivo
Teadoro, Teodora].

Com Brilho Eterno, entendi o bom de ter até as piores lembranças, apesar dos dias em que a gente queria que houvesse ali, na esquina da Ludwic Macal com a Antônio Basílio, um escritório especializado em limpar memórias por mapeamento cerebral, eliminar, num passe de mágica, os arrependimentos, as lágrimas, as tristezas, as saudades, as perdas e os erros, uma noite ingrata ou um mês inteiro, uma conversa triste, uma madrugada turbulenta ou um ano todo. Com A Natureza Quase Humana, lembrei do quanto o mundo é trágico, engraçado, complexo, injusto, curioso e engraçado de novo e bonito e feio, e às vezes tudo simetricamente misturado, demasiadamente humano, naturalmente bossa nova e um pouco rock’n’roll. Com Interior Design não foi nem uma coisa nem outra, só uma comoçãozinha inexplicável com a menina quase invisível que, numa noite de sonhos intraquilos como aqueles em que Gregor Samsa viveu antes de ser travestido em barata, transformou-se literalmente em cadeira, descobrindo, então, um sentido da vida.

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