sobre lembranças, a propósito

A verdade é que as coisas acabam, os amores, as esperas, as noites felizes, os doces da caixa, as histórias, os livros, o Domec e as dores. As esperanças acabam, e as revoltas, as reformas e as revoluções. O dinheiro de vez em quando acaba, e também os créditos, as crenças e as razões para querer alguém que não quer de volta.

As viagens um dia acabam, Rio, Havana, Paris, São Tomé das Letras, Marataízes, Ribeirão Preto, Nova York, las tardecitas de Buenos Aires, Londres cinza cerveja parede vermelha comida tailandesa e o boteco dos brasileiros na escola de estudos econômicos, qualquer lugar de ônibus, trem, carro ou de avião e a gente depois chegando em casa, desfazendo as malas, voltando diferente pra vida que levava antes. A verdade é que até as canções acabam.

“Pois já não vales nada
És página virada
Descartada do meu folhetim”

O inverno acaba e o calor (oba) acorda o corpo inteiro de manhã, os olhos cansados de ontem à noite, as plantas da varanda, as músicas de antes de dormir, os pensamentos desconexos, as descobertas inesperadas, as obrigações apressadas, louça pra lavar, lixo pra jogar fora, contas pra pagar, poeira pra tirar, aula de pilates, revista e jornal, amor, trabalho e uma sexta-feira inteira de sono atrasado, risco, família, sentido, promessa, gratidão, bicicleta na praia.

Até as histórias acabam, todas, as que deixam de ser minhas neste momento, as que me emprestam e igualmente passam a ser de quem lê, e todo o resto que cabe no sol. O tempo acaba, e às vezes também a imaginação. A verdade é que até a vida acaba. Mas a memória é poderosa, enche os vazios e – com exceção daquelas que doem ou aborrecem, e a gente tem vontade de brincar com elas de Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças – ameniza o presente quando nem cachaça nem aspirina nem morfina fazem o buraco parecer menor.

Ouvi dizer estes dias que a memória faz as pessoas conhecerem o verdadeiro valor dos momentos, e daí, vai ver, a gente entende no dia seguinte a importância daquele abraço, no mês seguinte percebe o quanto gostou daquela noite, na estação seguinte assimila as palavras do último outono, vive de novo e com outro olhar as mesmíssimas coisas, com outro peso (ou sem peso), quando lembra do cheiro (baunilha), da cor, dos detalhes (ou não lembra, e ri do próprio esquecimento), quando sente falta.

“Se você ligar o rádio
Todas as canções irão dizer:
Give I so long, my love”

Um dia, quando percebe o muito que fica quando as coisas acabam, as faltas incomodam menos e (ufa) a gente vive melhor.

Vitória, 4 de julho de 2009

tokyo

tokyo

Tokyo é o seguinte: um pequeno tratado sobre a solidão, a indecisão, o caos, a falta de espaço, a ausência de diálogo e o cinza, dividido em três episódios. Interior Design, de Michel Gondry, ganhou meu coração. Gondry, afinal, pelo menos para mim, é afeto em estado bruto. Adoro Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, o filme dos ex-enamorados que decidem se apagar um do cérebro do outro, porque o amor acabou, virou ódio concentrado, estas coisas que acontecem – e daí não mais calma, não mais riso, pisar em ovos, tentar uma duas três mil vezes, gosto amargo, dor no peito, tentar de novo uma tentativa frustrada, insistir e, depois de processos mais ou menos dolorosos e mais ou menos civilizados, desistir. Adoro A Natureza Quase Humana, uma inspirada sátira à [muito em tese] civilização: gente que trai, trapaceia, reprime, julga pelas aparências, joga fora a própria alma para parecer agradável aos olhos dos outros, estas coisas que acontecem. Adoro aquele videoclipe verde-psicodélicode do Les Cailloux.

Adoro, de modo que até repito o verbo adorar, como Bandeira e Teodora.

[Intransitivo
Teadoro, Teodora].

Com Brilho Eterno, entendi o bom de ter até as piores lembranças, apesar dos dias em que a gente queria que houvesse ali, na esquina da Ludwic Macal com a Antônio Basílio, um escritório especializado em limpar memórias por mapeamento cerebral, eliminar, num passe de mágica, os arrependimentos, as lágrimas, as tristezas, as saudades, as perdas e os erros, uma noite ingrata ou um mês inteiro, uma conversa triste, uma madrugada turbulenta ou um ano todo. Com A Natureza Quase Humana, lembrei do quanto o mundo é trágico, engraçado, complexo, injusto, curioso e engraçado de novo e bonito e feio, e às vezes tudo simetricamente misturado, demasiadamente humano, naturalmente bossa nova e um pouco rock’n’roll. Com Interior Design não foi nem uma coisa nem outra, só uma comoçãozinha inexplicável com a menina quase invisível que, numa noite de sonhos intraquilos como aqueles em que Gregor Samsa viveu antes de ser travestido em barata, transformou-se literalmente em cadeira, descobrindo, então, um sentido da vida.