de samambaias

Outro dia, no supermercado, percebi que gosto de samambaias. Gosto do verde plástico delas, das folhas caídas, da sensação de cheio que elas transmitem, dependuradas e firmes como poucas coisas no mundo conseguem ser ao mesmo tempo. Gosto da ideia do sol batendo nelas como se o mundo todo coubesse num sol, de um presente de aniversário às palavras de adeus, das canções de amor aos reencontros, da gargalhada diante da piada mais infame ao desejo secreto que você confessa e, um segundo depois, ri de vergonha e arrependimento, o mundo todo, cabendo num sol.

Gosto de pensar numa fila delas, um jardim inteiro de coisas bonitas e feias e singelas e divertidas e pretensiosas e inconfessáveis, como o jardim de Paris em que Hemingway passeava a si mesmo, o jardim dos caminhos que se bifurcam de Borges ou aquele, que sonhei pra nós. Gosto da forma delas e do espaço que ocupam na varanda, como se o mundo todo coubesse no espaço da varanda, da rede ao cinzeiro, do vinho ao ciúme, do vento ao sentimento abafado pela impossibilidade, da saudade às palavras que não acredito, de mim e dele e as nossas histórias todas vistas de frente para o Mestre Álvaro.

Gosto do cheiro de mudança que elas trazem, desde aquele fim de manhã no supermercado, porque primeiro eu olhava as samambaias e achava feiosas, espaçosas e ligeiramente cafonas, e depois dei pra gostar. As da minha infância viviam espalhadas no alpendre à espera de água e, talvez, de algum carinho na linguagem secreta da plantas. As da adolescência pediam socorro, aparentemente sufocadas pelas janelas que permaneciam fechadas enquanto estávamos fora. As dos meus 20 e poucos anos pareciam ainda piores, objetos de decoração de gosto duvidoso sujeitos a chuvas, trovoadas e ervas daninhas.

Mas naquele dia não; naquele dia, elas diziam que as coisas mudam, quase todas, quase sempre. Diziam que um dia você alimenta todas as esperanças do mundo e, no outro, as evidências contrárias derrubam o o seu sorriso. Diziam que um dia o poema da minha amiga faz todo sentido e você de fato acha que é preciso estudar volapuque, que é preciso estar sempre bêbado, que é preciso ler Baudelaire, e é preciso colher as flores de que rezam velhos autores; e no outro não é nada disso, e você fecha os livros, os poemas e as garrafas, desiste de aprender alemão e vai ao estádio assistir ao futebol.

Um dia você deixa de achar as samambaias cafonas e, quando menos percebe, passa a gostar de coisas que antes não – coisas samambaias ou coisas pessoas, coisas comidas ou coisas cores, coisas amargas ou coisas doces, coisas amores ou coisas trabalho. Daí, de repente, você passa a viver uma hora depois da outra com vontade de repetir a frase do livro que apareceu na minha mesa, mais ou menos na época em que percebi que gostava de samambaias, não sei vindo de onde, muito menos do que se tratava:

– Vem comigo. Te explico no caminho.

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