sete cidades

(texto velho – velho mesmo! – inspirado pela única música da Legião Urbana que acho que gosto de verdade. Parabéns pro Renato Russo nesta data querida em que ele faria 50 anos)

Mudou muito durante toda a vida, de cidade, de casa, de humor. Mas a trilha sonora permanecia a mesma – e sabia que seria assim, para sempre.

“já me acostumei com a tua voz, com teu rosto e teu olhar
me partiu em dois e procuro agora o que é minha metade”

A música ecoava na cabeça, o peito doía do lado em que mora o perigo, os pesadelos se repetiam, noite após noite, ao fim de cada um daqueles dias quentes em que viviam, Beatriz, Lucas e todos os outros seres esquisitos que sonhavam com o céu e acordavam, encharcados no próprio suor, num quarto de paredes vazias como a própria vida quase sempre era.

“quando não estás aqui sinto falta de mim mesmo
e sinto falta do teu corpo junto ao meu”

Sentia falta, era óbvio, mas estava envolvida num turbilhão de sentidos contraditórios, que ora diziam “a dor vai passar”, ora diziam, “melhor desistir”, o ser humano não havia nascido para ser feliz. Lembrava das confissões, dos sonhos, dos cinemas, tantas paixões, a canção, claro, era linda; os dez anos de união, as promessas, horas de dedicação, poesias rabiscadas em guardanapos de papel, sentimentos registrados que ele pedia “jogue fora” e ela, desobediente, guardava.

Havia entre os trecos a folha amarelada de uma violeta, e bastou seu cheiro, que nem era bom, para que a Beatriz visse passar como um filme – santo clichê, ela detestava a idéia – os últimos dez anos de sua vida, desde o primeiro encontro com Lucas, os dois etilicamente alterados, até o adeus dolorido daquela terça-feira de carnaval, exatos dez anos depois.

Era o fim, ponto final e uma interrogação: quanto tempo cabiam naqueles dez anos? Havia muitas respostas, e nenhuma. Cabiam meses, dias, horas, minutos e todo o vazio de não tê-lo mais por perto, e depois disso não cabia mais nada, só um sofá xadrez vazio, um copo vazio, um quarto vazio e uma estante repleta de livros que eles nunca haviam lido, de discos, de canções que nunca mais ouviriam juntos, o Neil Young, todos do Chico, o Nevermind, o Velvet Underground, o Álbum Branco, “Sete Cidades”.

“meu coração é tão tosco e tão pobre
não sabe ainda os perigos do mundo”

Olhava os discos e os vazios, e sentia falta da ingenuidade dos velhos tempos, sempre ele, implacável, e três pensamentos faziam a cabeça girar. Um deles trazia de volta a primeira viagem a Paris – haviam sido três, ao todo, uma em lua-de-mel, duas com a turma do francês, como era gostoso o deles.

O outro parava ali mesmo, na esquina do apartamento comprado a duras penas, num bar que eles juravam frequentar apenas quando todos os outros estivessem fechados. O terceiro ia ainda além, nos primeiros meses, os pratos congelados que a Beatriz insistia em servir ao final do expediente e o Lucas, matemático, provava por A + B que não valiam a pena – eram custos demais e sódio demais.

As lembranças – maldito costume – traziam o ler preguiçoso dos dias de folga, o sono ligeiro, o pequeno carinho dos domingos, o macarrão com queijo que ele preparava em substituição aos pratos congelados nos meses seguintes; tudo fazia doer todo o resto além das costas (que já doíam normalmente). Só o espírito não doía mais.

Simplesmente não estava mais ali.

“longe
longe”

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