samba

O samba tem destas coisas.

Tem o passado gingando na beira do mar, a gente sem saber se vai ou fica, se diz ou ignora, se pensa no futuro ou nem, se acredita outra vez ou esquece, de uma vez por todas, as palavras, os silêncios, os abraços, as canções, as promessas e as perguntas que disse, ouviu ou fez nas noites em que parecia possível dar certo. Tem a noite sorrindo no bar da esquina, os amigos novos que a gente arruma e conversa até gastar, cinema, fotografia, memórias, projetos, bobagens, olhares, piadas, filosofices, feminices e sempre a música.

O samba tem destas coisas.

Tem os momentos em que a gente tenta achar o tom, batuca no tamborim, pede outra pro garçom e canta até cansar, porque um dia decidiu levar a vida como Geraldo, Angenor, Nelson, Heitor, João, Noel, Ivone, Jorge, Clementina, Adoniran e Alfredo dizem, cobertos de razão, que é pra levar. Tem momentos em que a gente só olha, vê as escolhas dos outros, enxerga a felicidade alheia, ou a dor de algo que falta, observa a menina cheia de sonhos, sente as expectativas que não se confirmam, acolhe aquilo que não espera e acaba acontecendo.

O samba tem destas coisas.

Tem os planos e as surpresas, os encontros, os reencontros e os desencontros. Tem a convivência, estranhamente possível, entre cotidiano e acaso, rotina e surpresa, matemática e a arte, métrica e sentimento, física e poesia, o mundo todo dividido em dois ou mais, entre os fenômenos que se repetem regularmente e os fatos inesperados, entre o bem, o mal e o que não se sabe, entre ordem e caos, ciúme e desapego, decepção e a capacidade racional de seguir em frente, instinto e raciocínio, intuição e evidências, desejo e contenção, todos mais ou menos dentro do mesmo tempo e do mesmo espaço.

O samba tem destas coisas.

Tem o tempo, o contratempo [nada como um depois do outro] e, às vezes, disritmia [que bom é ser fotografado pelas retinas daqueles olhos lindos]. Tem as coisas que nunca mais [never more, a comunidade sabe]: nunca mais faço promessa, nunca mais ligo pra ele, nunca mais pergunto os porquês, nunca mais crio expectativas, nunca mais nego o que incomoda, nunca mais bebo Coca-Cola, nunca mais compro a prazo. Nunca mais, como o corvo do conto de terror, o corvo que dizia never more.

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