adriano e as voltas da vida

As notícias sobre o Adriano sempre me fazem pensar nas voltas da vida. Independente do quanto as posturas dele sejam boas ou más, questionáveis ou nem, tapas, beijos, amigo bandido, tráfico, moto, dinheiro lavado, barraco de namorada, asno, anão e aquela coisa toda que andam dizendo, gosto de lembrar da imagem dele de sorrisão escancarado depois daquele primeiro gol de cabeça na volta pro Brasil, o abraço dos companheiros, uma torcida imensa (não, eu não sou flamenguista), inteira, celebrando o recomeço.

Gosto de lembrar dele rindo à toa, com todos os dentes do mundo, braços abertos, peito pra frente, mãos esparramadas no ar quente do estádio de futebol, 90 minutos de festa na favela, no boteco da esquina, na Vila Cruzeiro, no Maracanã, em um monte de lugares, os olhos repletos de um encantamento que, àquela altura, resumia a decisão de voltar, sem salário milionário, sem endereço na Europa, sem um monte de coisas que a gente aprende a valorizar mas, com o tempo, descobre que não valem, assim, tanta coisa.

“Voltei para casa. Era o que eu precisava” foi a frase do Adriano naquela época, ou algo assim, e podia ser a minha ou a sua, a de qualquer um que, por alguma razão, tivesse de estar de volta contra todas as expectativas ao contrário.

Precisa coragem, minha amiga disse, desde aquela noite em que ele apareceu na televisão para explicar a decisão de voltar da Itália, largar o contrato milionário, desaparecer uns dias no meio de suas raízes e encarar as informações desencontradas dos fofoqueiros de plantão sobre sua vida, sua decisão, depressão, drogas, tráfico, namorada nova, mulher fruta contra fisioterapeuta, saudade, vazio, desencontro.

Precisa coragem, eu concordo, para assumir o que o ele assumiu, que perdeu o brilho, perdeu a vontade, que tinha de respirar, olhar, parar, refazer a carreira, o time, o amor, o endereço, o caminho, tudo, que queria mãe, amigo, memória, afeto, calor, que tinha de estar mais perto e sem tanto, mesmo que pra isso precisasse abrir mão do resto. Simples assim, independente do quanto as posturas dele sejam boas ou más, questionáveis ou nem.

sobre o desapego

Um dia descobri que a palavra ingênuo vem do latim e designa, antes de mais nada, aquele que nasceu sem servidão ou escravidão. Sem apego. Talvez por isso algumas ingenuidades me comovam tanto, como as dos que são livres dos preconceitos que nos fazem ver mais do que há, livres dos desafetos que envenenam o corpo e o resto, livres do excesso de razão que atrapalha a visão e os outros sentidos, livres como no poema, livres.

“Liberdade
Palavra que o sonho humano alimenta
Que não há ninguém que explique
Nem ninguém que não entenda”
(Cecília Meireles)