a mulher dos panos de prato

Que viagem
Ficar aqui parada.
(Alice Ruiz)

Ilustração de Paulo Galindro que achei por aí (http://geometricasnet.wordpress.com/2009/05/)

Ela sorri pra mim, todas as manhãs. Sorri um pouco com os olhos e um pouco com os dentes, um pouco com a cabeça e um pouco com as mãos, um pouco com o sol (quando, felizmente, faz sol) e um pouco com a música que imagino que ela imagina enquanto espera o sinal fechar. O sorriso é tímido, contido como são, quase sempre, os gestos destinados aos desconhecidos. Seu rosto tem marcas profundas, sinais do tempo, das lembranças e do trabalho que – vai ver – sustenta a casa toda, filho, mãe, marido, papagaio, arroz, feijão, sonho, prestação da TV, água, luz e chapinha no cabelo.

Às vezes diz alguma coisa, que ficou feliz com o resultado do BBB na última terça, que gostou do vestido daquela manhã, que o jornaleiro reapareceu ontem ou que a polícia sumiu às seis da tarde, subiu o morro sabe-se lá pra fazer o que (quem desconfia?). Conta que costura no quintal debaixo de uma mangueira, protesta que os preços do supermercado andam pela hora da morte, garante que – deixa estar – Deus escreve certo por linhas tortas e logo logo (tomara) as coisas se resolvem, todas, direitinho.

Às vezes tem ajuda, um filho um dia, o sobrinho no outro, simpáticos igual, e do mesmo jeito eles sorriem quando olho, do carro, tentando adivinhar (mania) o que pensam, sentem, inventam, se uma lista de obrigações do dia ou um samba que ouviram no Aloir, se amor não correspondido ou planos para o sábado, se futuro ou passado, música ou silêncio, saudade ou nem, apego ou liberdade, felicidade absoluta ou a mais profunda dor de dente, se coincidências ou os extremos de uma vida que podia ser minha, sua, dele, de qualquer um.

Talvez tenham sido criados, de alguma maneira, a favor da diferença (o mundo agradece), das contradições e da estranheza. Talvez sejam, como eu, adeptos da ideia de que um bom começo convida a descobrir uma história inteira, um beijo, um livro, um disco, uma garrafa de vinho ou uma viagem – porque as viagens, mesmo as menores, menos proveitosas e pouco surpreendentes, deixam na volta a vontade de mudar alguma coisa, recomeçar de outro jeito, quem sabe aprender uma língua nova, quem sabe amar daquele modo puro e profundo que amamos aos cinco anos de idade (lembra?).

Talvez sejam, isto sim, algo bem diverso, tenham, ao contrário, o olhar viciado dos conservadores, lei do menor esforço, escolha sempre do mesmo caminho, obediência cega aos parâmetros alheios de êxitos e desejos, submissão às expectativas da sociedade, inclusive as menos recomendáveis. Talvez sejam ainda outra coisa, que a imaginação não alcança enquanto estou parada no sinal de todo dia, quase sempre à mesma hora, óculos de sol, rádio ligado para embalar o caminho inteiro, marcha lenta (popularmente conhecida, também, como sono) e toda a minha imaginação concentrada na mulher que vende panos de prato no sinal de trânsito e na vida que invento ser dela.

(crônica publicada no Caderno 2 deste sábado)

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