auto-ajuda

Confesso, outra vez: em um dia de chuva como hoje, li, inteirinho, um livro de auto-ajuda para mulheres à beira de alguma coisa. Chamava Eu Tinha Saudades Dele, Mas Estou Melhorando, capa azul, uma moça com quem definitivamente eu não pareço sentada sobre o título e uma dedicatória que escancara o interesse pouco modesto da autora, uma moça formada pela London School of Economics que, segundo a orelha do livro, “já pesquisou questões políticas que incluem a influência da mídia na psique feminina e no desenvolvimento psicológico das mulheres” e atualmente “mora em Nova York com o marido”.

“Para mulheres de todos os lugares.
Que os seus ex causem apenas uma fração da dor que vocês podem lhes causar”.

Sabe o que é pior? Depois piora.

Alison James escreve que o fim de um relacionamento é uma experiência tão arrasadora quanto ter o braço mastigado por um cachorro (hein?) ou a perna da calça presa (ai) num caminhão em movimento enquanto se anda de bicicleta, tão surpreendente quanto caminhar por uma floresta tropical cheia (medo) de insetos exóticos. Ensina que homens são como bons vinhos (porque “todos começam como uvas e é nossa tarefa pisar neles e mantê-los no escuro até maturarem e se tornarem algo com o qual gostaríamos de jantar”) e garante que “haverá um momento em que você achará que tudo chegou ao fim, e esse será o início”.

São exatas 321 páginas de “lições” (com muitas aspas) que incluem esfaquear o ex, destruir a estátua dele (como?) com “chutes e passos de danças bizarros”, pedir para um amigo gravar a mensagem da sua secretária eletrônica, mencionar “a imensa e verdejante substância folhosa nos dentes dele quando ele sorrir para você”, substituir “imagens da vida perfeita ao lado dele” por outras, do ex “preso por trás de uma cerca elétrica muito alta com um pitbull enfurecido”, dizer que estava fingindo nos momentos íntimos, “escrever ‘morra, filho-da-mãe!’ no orvalho da janela dele numa manhã fria e subornar o primo de seis anos para gritar ‘ele me bate e dói muito’ na frente da polícia.

Com caroço, igual à tirinha do Laerte.

[pra engrossar o coro] bastardos inglórios: divertido e libertador como as boas coisas da vida

Um texto de outubro passado, para engrossar a torcida pelo filme, daqui a pouco, no Oscar. Pra quem não leu ou não assistiu, aviso que, no quinto (e último) parágrafo, eu conto o final da história.

Esqueça a conversa de que Quentin Tarantino distorce os fatos ou profana a memória dos judeus oprimidos, ultrajados e massacrados pelo resto do mundo. Esqueça as críticas dos politicamente corretos (o politicamente correto acabou com a graça da vida) a respeito de sua festa de sangue, humor e extravagância. Esqueça. “Bastardos Inglórios” é um filmaço. Ponto. É também uma fábula sobre a vingança, sobre como responder à altura a um insulto alegra o coração, sobre como revidar uma agressão faz bem ao espírito e, no caso, à História.

(Estamos, claro, falando de imaginação).

Fábula, é bom repetir, é uma narrativa alegórica, uma ficção. Tarantino criou, portanto, uma alegoria onde os judeus são tão (ou mais) carrascos que os nazistas e matam – alguém já disse – como índios apaches saídos de um bangue-bangue, recolhendo escalpos de suas vítimas e marcando com uma suástica na testa os poucos que decidem poupar da morte.

Os judeus de “Bastardos Inglórios”, ao contrário do que estamos acostumados a ver no cinema supostamente sério e nos livros de história supostamente verdadeiros, não são vítimas indefesas das matanças da direita europeia. São vingadores que, liderados por um norte-americano típico (Brad Pitt) e ajudados por uma judia de origem francesa (Mélanie Laurent) que viu a família inteira ser morta pelo regime, andam pela França ocupada na Segunda Guerra matando alemães a pauladas.

Tarantino não quer, acho, negar o sofrimento (real, inestimável) dos judeus. Sua obra é, antes de tudo, uma obra sobre o poder do cinema, sua imensa (e incontestável) capacidade redentora, sua defesa como espaço de finais alternativos e julgamentos justos (neste caso: Hitler e seus capangas acabam eliminados no tribunal da sala de cinema). É um filme-catarse, divertido e libertador como são, divertidas e libertadoras, as boas coisas da vida.