… e um texto antigo, a propósito

um GPS para a vida

Ilustração da Mariana Mauro (http://www.flickr.com/photos/marianamauro)

Quis, àquela hora daquela noite, que inventassem um GPS para a vida.

O GPS é um sistema de localização por satélite feito para determinar a posição de alguém ou alguma coisa. Criado e controlado pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos, ele pode ser usado por qualquer um que tenha um receptor capaz de captar o sinal dos tais satélites. Ao que parece, uma simples (ok, não deve ser tão simples) combinação de latitudes, longitudes e altitudes dá a direção exata para motoristas, aviadores, aventureiros, navegadores, guardas florestais, geólogos, arqueólogos, ciclistas, balonistas e pescadores.

Por definição, portanto, o GPS (ou Sistema de Posicionamento Global, em bom português) serve para apontar o caminho sempre que houver dúvidas; e por isso pode ser útil a qualquer um que queira saber sua posição, conhecer sua velocidade e sua direção ou encontrar seu rumo, mesmo que haja nuvens não determinadas pela previsão do tempo, movimentos não previstos pelas leis da Física, percursos até então desconhecidos pela Teoria dos Espaços de Hilbert.

Uma maravilha tecnológica, alguém diria. Mas eu, que não sou ciclista, balonista, arqueóloga ou ecoturista (não mesmo), não entendo nada de tecnologia por satélite e tenho um senso de localização que é melhor nem comentar, diria que o bom mesmo é que inventassem um GPS para a vida. O Super GPS para Dias de Tormento e Dúvida ajudaria a decidir se posse ou liberdade, se apego ou bom senso, se amor ou outra coisa que se possa suportar, se fim ou começo, se fundo de renda fixa ou se, como naquela canção de Neil Young, melhor queimar tudo agora do que desaparecer aos poucos.

“it’s better to burn out
than to fade away”

Escolhas têm consequências e correção monetária, ensina o Ensaio sobre a Natureza dos Juros, segundo o qual o estômago, os amores, os espíritos e a música estão, mais ou menos do mesmo modo que a Economia, sujeitos aos acréscimos monetários impostos por quem empresta a quem paga: comer frutas, verduras, vitaminas e cereais hoje indica saúde amanhã, e quem sabe uns anos a mais; amar nestes tempos com zelo, e não apego, aponta afeto e equilíbrio nos tempos seguintes, e quem sabe uns anos a mais; trocar impulso por prudência significa permanência, e quem sabe alguma coisa a mais.

Mas há também gordura e chocolate, gim com água tônica e nada de exercício, excessos e tanto amor que às vezes sufoca e interrogações aos montes, e nestas horas calmantes não acalmam mais, abraços antes reconfortantes não confortam mais, cartografias claras não se aplicam mais, e a gente não sabe se esquerda ou direita, se cidade ou campo, vazio ou companhia, se presente ou futuro, risco ou solidez, não sabe se ir ou ficar, se aquela epístola do “posso tudo, mas nem tudo me convém”, ou o Nietzsche de “Deus está morto”.

Simplesmente não sabe.

(Vitória, 29 de janeiro de 2007)

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