escolhas

(Direto do baú, um texto de julho de 2007, porque hoje é dia de fazer uma pequena homenagem à coragem das escolhas. Viva elas.)

Ilustração da Mariana Mauro (http://www.flickr.com/photos/marianamauro)

Antes de mais nada, aviso e comunico que, no último parágrafo, eu conto (um pouco) o final do filme Cidade dos Anjos.

Entrevistei outro dia o sujeito que largou a Microsoft para – palavras dele – mudar o mundo. John Wood, 40 e poucos anos, nasceu nos Estados Unidos, formou-se em economia com honras, fez pós-graduação, assessorou Bill Gates, viveu na China e na Austrália, conheceu hotéis de muitas estrelas ao redor do mundo, juntou dinheiro, comprou carro e roupas da moda e presentes para a namorada igualmente bem-sucedida, agiu durante toda a vida – palavras dele de novo – de acordo com as expectativas da sociedade.

Esteve assim, seguindo os parâmetros alheios de êxitos e desejos, mas profundamente infeliz, até o dia em que, de férias do trabalho e de saco cheio do mundo, viajou para o Nepal de mochila nas costas, subiu o Himalaia como se tivesse 15 anos de idade, bebeu cerveja com os locais, fez amigos muito diferentes dos habituais e descobriu um país de costumes um pouco exóticos e geografia encantadora onde sete entre dez crianças conviviam diariamente com a imensa probabilidade de serem analfabetas pelo resto da vida.

O resto da história não é difícil de imaginar: Wood voltou para casa, pediu as contas, largou a vida boa, mobilizou os amigos, reuniu doações e fundou a Room to Read, uma ONG com sede em São Francisco que, em sete anos de atividades, já construiu 287 escolas, 3.600 bibliotecas e 110 oficinas de informática e distribuiu 2,8 milhões de livros para 1,2 milhão de crianças no Nepal, no Vietnã, no Camboja, na Índia, no Sri Lanka, no Laos e na África do Sul.

Ele jura que nunca esteve tão satisfeito, que fez exatamente as opções que devia ter feito, e emendamos uma conversa sobre escolhas ousadas e caminhos desconhecidos, sobre o fato de que vivemos, todos, num mundo repleto de gente que tem aversão ao risco e apego à segurança, sobre como as indefinições doem e os começos também, sobre as dificuldades de desatar nós e criar novos laços, sem conselho, sem conforto, sem consolo e sobre como, mesmo que às vezes não pareça, estas coisas, um dia, dão lugar a outras.

Vai ver é aquela ideia da relatividade, o exercício de negar o caráter absoluto das coisas e tratá-las como se houvesse dezenas de verdades, boas e más, num único fato. Vai ver é mais que isto, até; é a certeza de que não existem escolhas ruins, apenas consequências, melhores ou piores, dependendo de tanta coisa que nem cabe numa crônica, de tempo, distância, humor, ressentimento, lembrança, vontade, sonho, peso, desejo, física, olhar, gravidade, poeira, afeto, rancor, indiferença, dedicação, profundidade, tanta coisa.

Vai ver é como o personagem de Nicolas Cage em “Cidade dos Anjos”, o anjo torto que se apaixona por uma mulher em suas andanças pela terra e decide, a despeito de todas as desvantagens, deixar de ser anjo, tornar-se mortal como o objeto de seu amor e, deste modo, viver com ela todas as sensações disponíveis apenas aos humanos, até as mais simples, até calor ou arrepio, até vento no rosto, até gosto de fruta, até o incômodo de um corte na boca.

O final não é dos mais felizes, de acordo com os padrões de felicidade dos contos de fada, dos romances em geral e dos filmes com a Meg Ryan em particular. Mas o anjo caído garante que faria tudo de novo, exatamente do mesmo jeito, para sentir o calor, o arrepio, o vento, a fruta e a dor de um machucado, uma única vez que fosse; depois segue, à maneira que escolheu, digerindo, uma por uma, todas as consequências, até as das suas escolhas mais estranhas.

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11 comentários sobre “escolhas

  1. Os caminhos seguidos dependem das escolhas feitas. Os caminhos mais curtos nem sempre sãO os melhores, talvez, um caminho maior, com curvas, declives e aclives é o ideal!

    Penso que as escolhas certas nem sempre são as mais acertadas da vida.

    Ana,
    obrigada mais uma vez pela crônica que esquenta o coração!

    Beijos,

    Gi

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