o mundo de sophie (calle)

Como acabam as histórias de amor? Até que ponto é preciso escavar a arqueologia sentimental para saber em que momento começou o irrecuperável? Como, também, elas começam? Em que dia, em que cidade, no meio de um show de jazz ou na volta do teatro, no sofá da sala ou os dois estirados no chão, vendo o teto e ouvindo as canções que estiverem ao alcance, todas, uma depois da outra? De que maneira a gente apaixona ou desapaixona? Onde percebe que, leve como pluma muito leve leve pousa, não consegue mais ficar longe? Quando simplesmente acontece o que faz não ser mais possível?

Voltei às perguntas daquele delicioso mês de maio enquanto visitava, na sexta-feira de carnaval, no Rio de Janeiro, a exposição Cuide de Você, de Sophie Calle. A história dela foi contada inúmeras vezes. Calle estava em Berlim, em 2005, quando recebeu do namorado, Grégoire Bouillier, uma mensagem sem pausa nem amaciante: estava tudo acabado ele ainda a amava mas não estava bem ultimamente não se reconhecia em sua própria existência jamais havia mentido pra ela então não era agora que mentiria tinha outras três mulheres que ela certamente não aceitaria até gostaria que as coisas tivessem tomado um rumo diferente então adeus estava mesmo tudo acabado.

Ela esperneou, tentou imaginar o que teria feito de errado, praguejou contra o autor da carta, cretino, idiota, corno, absurdo, vingança, dor no estômago, chocolate, buááá, vodca, porre, ressaca, remédio pra dormir ou possivelmente alguma variante da ladainha que, uma ou mais vezes na vida, toda mulher encena diante do mundo desabado pelo fim de um amor. Depois, como não soubesse o que responder (alguém sabe, numa dessas?), fez 107 cópias da carta e distribuiu entre mulheres de variadas idades e profissões, pedindo que elas buscassem suas interpretações para o que estava escrito e fizessem o que quisessem com as palavras finais dele: “Cuide de você”.

Era a maneira que havia encontrado de obedecê-lo e cuidar de si.

A exposição apresenta o resultado das interpretações e, também, fotos das mulheres convidadas por Calle para participar do projeto. Tem desde a petição de uma juíza até a conclusão de uma taróloga, desde a notícia redigida por uma jornalista segundo os padrões de agências internacionais de notícias até a análise de uma terapeuta familiar, desde a ladainha de um papagaio (uma cracatua, pra ser mais exata) até a constatação, pura, simples e muitíssimo prática, de uma criança diante do inevitável acabar-se.

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A propósito, Calle, que discutiu a relação em público com Bouiller durante a Festa Literária de Paraty, no ano passado, já era  famosa por esquisitices em nome da arte bem antes de Cuide de Você. Ela filmou os últimos dias de vida e a morte da própria mãe (ela tem 612 horas de gravação), perseguiu estranhos nas ruas de Paris para fotografá-los e criar fichas com histórias que imaginava a respeito deles (nesta época também trabalhou como stripper em um clube da zona boêmia parisiense). Dois anos depois, em 1981, pediu à mãe que contratasse um detetive para segui-la por 24 horas, sem que ela soubesse quando a perseguição estaria acontecendo exatamente. Os dois registraram o período, com fotos e anotações que se transformaram na exposição La Filature (A Perseguição).

Aqui tem mais sobre a trajetória dela.
Aqui quem quiser pode mandar sua interpretação para a carta.
Aqui dá pra ler a carta de Bouiller, traduzida para o português.

um carnaval hippie-psicodélico

Depois dos blocos e do maior calor de todos os tempos, dá pra celebrar o carnaval, também, vendo Aconteceu em Woodstock, filminho simpático que recupera o espírito e os acontecimentos em torno do festival mais importante (ou pelo menos mais famoso) da história da música. Woodstock foi, de certo modo, também um carnaval, só que hippie-psicodélico. O mundo estava em guerra, uma guerra desigual, sangrenta e inútil como são quase todas as guerras, vietnamitas de um lado, norte-americanos de outro e um bocado de contrários a ambos pedindo paz e toda a alucinação possível (ou não).

O novo filme de Ang Lee reconta aqueles dias de agosto de 1969 a partir do olhar de Elliot Tiber, um artista frustrado às voltas com salvar ou não o negócio decadente dos pais, sair ou não do armário, deixar ou não a cidade em que cresceu para virar um peixe pequeno num grande aquário. all the leaves are brown and the sky is grey, todas as folhas marrons e o céu cinza, o fura-bolo e o pai de todos em V, trança no cabelo, sandália de couro e uma imbatível disposição de protestar contra a opressão e a violência sempre que for preciso.

Tiber (ele existe e escreveu sua história no livro aí do lado) esteve no centro dos acontecimentos do festival que reuniu 1,5 milhão de pessoas na pequena cidade Bethel e reacendeu o sonho de liberdade nascido pouco mais de um ano antes, no Maio de 68 francês. Ele intermediou a negociação dos organizadores com o dono da fazenda que sediou os shows, alugou o hotel da família para a produção e ajudou a (mais ou menos) convencer sua conservadora comunidade sobre o evento.

A ingenuidade de Tiber é comovente, ele e sua imensa capacidade de acreditar, aquela fórmula meio romântica (e, apesar das descrenças alheias, muitíssimo necessária para o mundo) que mistura música e liberdade, all the leaves are brown and the sky is grey, todas as folhas marrons e o céu cinza, o fura-bolo e o pai de todos em V, trança no cabelo, sandália de couro e uma imbatível disposição de protestar contra a opressão e a violência sempre que for preciso.