nostalgias

Andei nostálgica. Dos tempos em que escrevia um texto novinho em folha a cada terça-feira. Daqueles em que cavava personagens pitorescos, contava trajetórias centenárias, garimpava aventuras, ideias, figuras exóticas, experiências que valiam a pena. De quando levava para o papel o mundo que via com mais confiança e um quê de ingenuidade [e talvez fosse, de fato, um mundo menos selvagem que o de hoje].

Andei nostálgica. Das noites em que a amizade nos inspirava a viver e a contar histórias. Daquelas em que a simplicidade determinava o horário de ir embora, e às vezes de nem ir. Das rodas de violão, de samba, de vinho e de piano. Das madrugadinhas, do gim com tônica, das conversas e da música que sempre havia nelas. Das tardes em que almoçávamos na Praia do Canto fingindo estar no Leblon da novela das nove. Dos amigos do peito que talvez não tenham a menor ideia da falta que fazem.

[Torço por nós, mesmo que a distância].

Andei nostálgica. Da época em que o Brasil parecia ter jeito. De quando as autoridades tinham preocupações mais relevantes que as bananas do Equador, o filme da garota de programa, suspender as provas para a carteira de motorista ou as calcinhas da Ilha de Marajó. De quando juiz era pra julgar, justa e verdadeiramente. Do tempo em que os sentimentos que despertávamos como Nação eram de orgulho e alegria, não vergonha.

Andei nostálgica. De quando as coisas apertavam e minha amiga estava na cadeira em frente. Do pescoço de sexta-feira, quando pedíamos pizza e Coca Cola para enfrentar a sucessão de páginas que era preciso revisar antes de mandar para a gráfica. Das inovações que fazíamos com o peito aberto, sob as bênçãos do diretor de redação. Dos ensinamentos do professor a respeito do som das palavras e dos começos perfeitos. Das horas de dúvida em que a resposta, serena e certeira, morava invariavelmente na sala da sábia chefa que se mudou para Portugal.

Andei profundamente nostálgica de uma lista imensa de coisas, coisinhas e coisonas, embora, no fundo, soubesse que os tempos não eram mais os mesmos e nunca seriam.

Diferentes também estávamos todos nós. Estávamos diferentes e plenamente cientes da velha máxima segundo a qual ninguém se banha duas vezes no mesmo rio. Estávamos diferentes e plenamente cientes de que, também, ninguém ama duas vezes o mesmo amor, ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho, ninguém sente duas vezes a mesma dor. No momento seguinte, nem sonho nem amor nem dor nem pessoa nem rio são os mesmos de antes. São outros.

pequena crônica sobre toda gente

Gente do mal atrapalha os planos da gente, altera a nossa rota, bagunça os nossos afetos, põe em xeque o gosto por coisas que, em outros tempos, tinham sabor de bolo quentinho de chocolate. Gente do mal desnorteia a inspiração da gente, aniquila a nossa fé no movimento, abala a esperança que temos em dias melhores e madrugadas.

Gente do mal transforma o riso em pontas cobertas de poeira e ferrugem, detona o equilíbrio que vai dentro, bloqueia a energia que corre nas veias. Gente do mal é capaz de jogar projetos, anseios e desejos de uma vida inteira num buraco escuro e fundo. Gente do mal não leva em conta a dedicação, despreza o esforço e tem pouquíssima consideração com o trabalho e a história da gente. Gente do mal finge que se importa, mas ai ai ai. Gente do mal um dia morre na gente.

Às vezes até as nossas pacientes economias entram na roda torta dessa gente maldosa que, vez ou outra, esbarra no caminho da gente. Gente do mal não tem freio, simplesmente.

Graças aos deuses e deusas, gente do bem é justo o oposto. Gente do bem não rouba da gente – nem tempo nem dinheiro nem a fé no movimento nem a esperança em dias melhores. Gente do bem não finge afeição, não estimula a desavença, não alimenta a discórdia nem solta da mão da gente.

Gente do bem ajuda a gente a lembrar de onde veio e contribui na construção de endereços, sequências e desfechos, nos consertos e nos recomeços. Gente do bem diz o que é preciso dizer, a despeito da timidez, do embaraço ou de possíveis constrangimentos. Gente do bem vibra com a alegria da gente.

Às vezes até as nossas causas mais secretas entram na pauta dessa gente amável que, vez ou outra, esbarra no caminho da gente. Gente do bem colore a estrada da gente e valoriza cada segundo de dedicação e lealdade. Gente do bem é como na canção.

[Quando os teus olhos cansarem dos meus olhos, não é preciso haver falsidade entre nós].

Graças aos deuses e deusas, gente do bem combate a violência com argumento, verdade e brandura. Gente do bem salva dias, noites e madrugadas de falta de sentido, dias, noites e madrugadas em que a maldade alheia bate na porta da gente, dias, noites e madrugadas de injustiça, desequilíbrio ou uma ausência daquelas.

Gente do bem mora de pantufas no coração da gente.

a vida e seu ofício

“Nesta vida morrer não é difícil.
O difícil é a vida e seu ofício”.

Os versos do poeta russo não me saiam da cabeça quando a moça dos olhos de amêndoa contou a respeito daquele sábado de chuva forte, calor opressivo e velhas saudades. Mais uma vez, uma silenciosa ausência roía o fundo do seu estômago. Buscava lacunas, caminhos, respostas, mas sabia que era cedo para encontrar qualquer vestígio do que pudesse ter havido. Não chorava, ao contrário das muitas noites anteriores de desalinho. Parecia anestesiada pela repetição do ato, como se simplesmente estivesse morta e enterrada a Patti Smith que um dia morou dentro dela, aquela Patti Smith à espera de Robert Mapplethorpe quando ele desaparecia nos labirintos de seu mundo de michês.

Para você que se ressente da falta de fatos:

Os versos sobre viver e morrer que não me saíam da cabeça haviam sido escritos por Vladimir Maiakovski em memória do amigo Serguei Iessienin, no longínquo ano de 1926.

A moça dos olhos de amêndoa era uma velha amiga, afastada do equilíbrio pelas próprias escolhas, cada vez mais distante de si mesma, atormentada pelas ausências prolongadas e inexplicadas de um homem repleto de dissonâncias e bemóis. O sujeito que roubava seus beijos, seu pensamento e seus peitos subtraia também, de formas boas e más, seu sono e seu sossego. Ela o amava em absoluta simbiose e frequente turbulência, como Patti Smith amava Robert Mapplethorpe desde o verão de 1967, o verão em que perdemos John Coltrane, mas ganhamos Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.

[Esperamos que gostem do show.]

Robert Mapplethorpe não vive mais entre nós, abatido pelo vírus da AIDS em 1989. Serguei Iessienin também não, desde que decidiu partir de si mesmo, três dias depois do Natal de 1925. Maiakovski escolheu destino semelhante ao atirar contra o próprio peito, em 14 de abril de 1930, aos 36 anos.

Nas palavras dedicadas a Iessienin, Maiakovski dizia que era preciso transformar a vida para cantá-la em seguida. Também sentenciava, entre profeta, filósofo e boêmio ligeiramente alterado pelo álcool: era melhor morrer de vodca do que de tédio. Cinco anos depois, ao escrever a própria despedida, soou bastante menos esperançoso – por motivos óbvios.

– De minha morte não acusem ninguém, por favor, não façam fofocas. O defunto odiava isso. Os poemas inacabados entreguem aos Brik, eles saberão o que fazer. Como dizem: caso encerrado, o barco do amor espatifou-se na rotina. Acertei as contas com a vida. Inútil a lista de dores, desgraças e mágoas mútuas. Felicidade para quem fica.

Maiakovski se foi, trágico e jovem. Seus versos, ao contrário, atravessaram o século intocados pelos estragos do tempo. Porque sou avessa à matemática, não contei quantos anos se passaram desde então até aquele sábado de chuva forte, calor opressivo e velhas saudades.

O que contei, apenas: que os versos feitos para Serguei Iessienin não me saiam da cabeça, que uma silenciosa ausência roía o fundo do estômago da moça dos olhos de amêndoa e que ela não chorava, como se estivesse morta e enterrada a Patti Smith que um dia morou dentro dela, aquela Patti Smith – vocês sabem – à espera de Robert Mapplethorpe quando ele sumia nos labirintos de seu mundo de michês.

O que contei, também, a despeito de ser avessa à matemática: que nenhum passar de anos seria capaz de abalar a doída, mas reveladora verdade guardada nos versos de Maiakovski para o amigo que decidiu partir de si mesmo três dias depois do Natal de 1925. Morrer não era difícil. O difícil era a vida e seu ofício.

sororidade, substantivo feminino

A palavra sororidade ainda não faz parte da maioria dos dicionários da língua portuguesa. Seu imenso significado, no entanto, ecoa todos os dias, em lugares diversos, nas atitudes de mulheres que protegem, apoiam, encorajam, fortalecem e incentivam outras mulheres.

Sororidade é a união entre mulheres, calcada na empatia, na defesa e no companheirismo de quem enfrenta problemas comuns e busca objetivos parecidos. É a aliança de iguais com diferentes, solidificada pela solidariedade e pela sensibilidade de quem conhece as dificuldades impostas quase sempre pelo mundo dos homens.

Sororidade tem a ver com não realizar julgamentos prévios, pois, muitas vezes, juízos precipitados com relação a mulheres refletem estereótipos machistas e patriarcais. Tem a ver com apoiar outras mulheres para buscarmos, juntas, a liberdade a que temos direito – ou deveríamos ter. Tem a ver com banir as palavras vagabunda e vadia do nosso vocabulário e parar de responsabilizar as mulheres pelas escolhas de um homem comprometido.

[Quem nunca?]

Sororidade simboliza o laço que convida as mulheres a lutar por direitos iguais, a raiz comum que convoca a combater os preconceitos de gênero. O prefixo soror vem do latim e significa irmã. Seu uso aponta para a irmandade entre mulheres, para a prática de ensinar que meninas não precisam odiar outras meninas, não precisam rivalizar com elas, não precisam se vestir para elas e nem considerá-las como concorrentes.

Pode parecer óbvio, mas a verdade é que fomos criadas, com raras exceções, para colaborar com os homens e competir com as mulheres. Lutamos para alcançar postos mais altos na carreira profissional, custe o que custar. Mas esquecemos que, quanto mais progredirmos, maiores as chances de levarmos outras mulheres conosco e maiores as possibilidades de implantarmos políticas de inclusão e igualdade nas empresas.

Vivemos em estado de alerta contra as vacas que flertam com nossos santos namorados, ex-namorados, maridos e ex-maridos [assim mesmo: como se fossem elas as vacas e eles os santos]. Investimos em vestidos, sapatos e maquiagens para brilhar na comparação com os vestidos, sapatos e maquiagens de outras mulheres. Mas perdemos em bom senso, deixamos a falta de empatia engolir qualquer sinal de compreensão e comunicação.

Praticar a sororidade exige que nos coloquemos umas no lugar das outras. Por mais difícil que pareça. Por mais novo que seja. Por mais que nem todas façam. Por mais que culturalmente sejamos treinadas para o contrário. De outra forma, seguiremos criticando, competindo e desprezando aquelas que deviam ser parceiras de batalha, ao mesmo tempo em que reforçamos o machismo, nutrimos a desigualdade e enfraquecemos a nós mesmas.

Sororidade é uma revolução feita de dentro para fora.

um olhar sobre a felicidade

Nem sempre é fácil. O ritmo alucinado e alucinante da vida nos induz a acumular bagagens, competir com os semelhantes, desprezar os diferentes, ouvir pouco, falar muito, correr por correr, quase sempre sem pensar no que verdadeiramente nos move. Temos visto e vivido dias e respectivas noites repletos de tretas para os mais variados gostos, desencontros, angústia, sombras, solidão, falta aguda de perspectivas animadoras.

Nem sempre é fácil. O modo como muitos de nós estamos vivendo afasta mais do que aproxima, destaca as discordâncias mais do que os elos, fortalece o ego em oposição à partilha, naturaliza o preconceito, amplifica a intolerância, estimula a violência.

Definitivamente, nem sempre é fácil.

Mas um sujeito de rosto banal, óculos de aros finos, nariz adunco e sorriso contido chamado Tal Ben-Shahar parece ter vislumbrado um caminho. Na primeira vez que ele ministrou seu curso na Universidade de Harvard, Estados Unidos, em 2008, oito alunos se inscreveram. Dez anos depois, o número era ligeiramente maior: passavam de 1.000 os interessados naquele que se tornaria o curso mais conhecido da faculdade mais celebrada do mundo.

Felicidade, não Direito, Medicina ou Engenharia, era o programa que os estudantes buscavam com o professor israelense de rosto banal e óculos de aros finos.

O que realmente interfere no quanto somos felizes, ele ensina, é o tempo que passamos, por inteiro, com pessoas, em lugares e em atividades que são importantes para nós. Além disso, entender o estresse e o fracasso como partes do que também somos ajuda muito, e é um aprendizado e tanto. Para evitar o desânimo, a frustração e a tristeza, precisamos vivenciar todas as emoções, sejam elas boas ou justo o oposto, como a raiva, o arrependimento e a decepção. Caso contrário, ele aposta, elas se intensificam.

Sentimentos dolorosos não são de todo mau, defende o professor israelense de nariz adunco e sorriso contido. Eles significam que estamos vivos e que, salvo engano e uma ou outra exceção, não somos psicopatas.

[Ufa].

Há, evidentemente, um componente genético na felicidade nossa de cada dia. Mas a maior parte dela, garante Ben-Shahar, depende da forma como decidimos encarar as quedas, interpretar as derrotas e fazer escolhas, das grandes às menores.

Há também as condições materiais, e é certo que elas importam, porque temos contas a pagar, supermercado, remédio controlado, o conserto da bicicleta, os impostos todos, as prestações combinadas, a pia que precisa ser trocada, o condomínio implacável no quinto dia do mês, a vida real repleta de boletos, extratos e faturas impiedosos a bater na porta.

O que fazer, então, quando as contas não fecham? Como ser feliz em meio a tantas obrigações e diante dos tropeços? Como ter tranquilidade e alegria apesar do que pesa? Como caminhar rumo a um futuro próspero a despeito do que falta? Como seguir em frente depois de uma grande decepção ou de um tombo daqueles?

Resumindo a ópera, a resposta ensinada em Harvard aponta para equilíbrio e propósito, para o tempo passado com aqueles que são importantes para nós, a capacidade de entender o fracasso como parte do que somos e a força interior que herdamos dos momentos difíceis.

Nem sempre é fácil [não mesmo], mas quem disse que seria?

da série começos inesquecíveis: moby dick, 1851

aspasMe chamem de Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo. É um jeito que tenho de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. Sempre que me pego ficando amargo, mandíbula tensa; sempre que em minha alma se faz um novembro chuvoso e cinzento; sempre que me vejo detendo involuntariamente o passo diante de agências funerárias e seguindo a cauda de todo cortejo fúnebre que encontro; e especialmente sempre que minha hipocondria leva a melhor sobre mim de tal forma que só um forte princípio moral me impede de sair à rua e, deliberadamente e com método, aplicar murros na cara dos passantes – nesses momentos, sei que está na hora de me fazer ao mar o mais depressa possível.

Moby Dick
Herman Melville
1851