da série #leituras: livro dos começos

aspasO começo não passa de interrupção de algo que já vinha ocorrendo, mas que ainda não tinha recebido nome. As coisas estão em permanente processo até que alguém apareça e nomeie um ponto das coisas como começo. Assim, o começo pode até ser chamado de fim, em nome de uma fúria nomeadora.

Mais do que nomear, designar um começo é localizar algo no tempo e condená-lo à temporalidade, já que o começo é um elemento da tríade composta de passado, presente e futuro. O que agora é começo em muito ou pouco tempo já será passado. Porém, se não nomearmos nada, se não interrompermos as coisas para chamá-las de começo, elas simplesmente continuarão, sem jamais se darem conta de suas partes ou de sua localização no tempo e no espaço e então não estaremos condenados ao meio e ao fim, pois nenhum deles o será. É como cortar algo que passa, represar a correnteza e desviá-la de seu curso para estabelecer um curso que se disfarça de novo, quando é somente uma violação do que já existia.

Começar é o sintoma mais forte do desejo de novidade, já que todo começo contém a energia do novo, a que poucos resistem. Logo depois, o novo se desgasta, vira passado e surgem outros começos, outras interrupções do que já vinha acontecendo para que aquela energia se refaça. Não se respeita a energia da inércia, essa sim mais genuína; uma força que se arrasta sozinha e que se mantém até que sua carga se esgote. É preciso agarrar a inércia, enxertar-lhe forma e significado, até que ela se recomponha e se transforme em começo. Dessa maneira o acontecimento se enfileira, como um soldado a postos, para dar sequência às coisas que de agora em diante se abaterão sobre ele. Ele agora faz parte de uma perspectiva, de um projeto, e terá que se postar obedientemente, para depois ser substituído pelo meio e pelo fim. Ele já avista ao longe, preparando-se, os batedores do meio, que se encaminham para o seu lugar e já lhe lançam olhares temerários.

Que o começo não se estenda demais, eles parecem dizer. Que ele não venha com caprichos, retardando o momento da entrada. Que não os atrase, eles dizem. E o começo, que antes vinha embalado, inconsciente de si, no fluxo das coisas, conforma-se cabisbaixo a sua nova condição e aceita seu destino.

Trecho do Livro dos Começos, de Noemi Jaffe

pequeno dicionário para o ano que começou

A
A pé, sempre que possível
Amor, todos os dias
Arte [faz parte]

B
Batata doce
Brecha na agenda
Blog, ano 13

C
Celular em modo offline
Cozinha afetiva
Camarão não pode

D
Desapego
Dores sob controle
Drummond, Carmélia, Clarice, Borges, Cortázar

E
Equilíbrio
Escrito à mão
Em paz com a vida e o que ela me traz

F
Forno e fogão
Filtro 40
Fé [que a fé não costuma faiá]

G
Grafite 1.9
Gangorra eu não gosto
Gil, Caetano, Chico, Tom, Sampaio, Melodia, Aldir

H
Há folhas no meu coração [é o tempo]

I
Inspiração
Inspiração
Inspiração

J
Justo o oposto
Janelas abertas
Jazz, uma vez mais

K
Kind of

L
Leveza, sempre que possível
Livro novo, quem sabe
Leituras

M
Menos é mais
Madrugada
Mente quieta, espinha ereta, coração tranquilo

N
Nina Simone, um ano mais
Nada contra
Nada consta

O
Óculos
Oração
Ouvir, de fato

P
Pedalar
Praticar
Produzir

Q
Quereres
Quitanda
Quotes

R
Recomeços
Reencontros
Releituras

S
Semente
Simplicidade
Ser livre é poder escolher ao que se prender

T
Todo dia é dia de viver
Tradição, nas ocasiões em que sim [nas outras: revolução]
Then you can star to make it better

U
Uma coisa de cada vez
Unidade, união
Umbigo não é o centro do mundo

V
Violão
Vestido, ainda sempre que possível
Verde em volta

W
White, E.B.: Esperança é o que nos resta nos tempos difíceis
Waffle
Wave [porque fundamental é mesmo o amor]

X
X nas boas escolhas

Y
Yin
Yang
Yin-Yang

Z
Zelo
Zoom, para ver de perto
Zarpar quando for preciso, como antes.

efeito borboleta

Pode um minuto que seja mudar o rumo das coisas todas? Os desfechos estão escritos ou a vida vai sendo tecida conforme correm os anos em seus meses e os meses em seus dias e respectivas noites? Somos marcados para protagonizar esta ou aquela experiência ou as cenas se constroem conforme instrução divina?

Pensávamos nisso diante da tragédia anunciada pela emissora de televisão: 71 dos 77 passageiros do Avro Regional Jet 85 colombiano estavam mortos, um time inteiro de futebol dizimado a uma hora de seu destino, às vésperas da final do campeonato.

Perguntávamos de nós para nós mesmos o que teria havido se o chute defendido pelo pé direito do goleiro no último minuto do último jogo tivesse desfecho oposto. O que teria havido se aquele gol fosse consumado? A resposta evidente mexia mais com o nosso fígado do que as doses de Jim Bean sem gelo que acompanhavam a conversa. Outro time jogaria a final, outro time estaria no avião, outro time que não aquele, inteiro dizimado a uma hora de seu destino, às vésperas de vocês sabem.

A teoria do matemático Edward Lorenz voltava oficialmente a nos assombrar.

Em 1963, nenhum de nós havia ainda nascido. O pesquisador norte-americano, por sua vez, já trabalhava com previsões meteorológicas nos laboratórios do Instituto de Tecnologia de Massachusetts. A certa altura, Lorenz concluiu que o bater de asas de uma borboleta seria capaz de influenciar o curso natural das coisas e provocar um tufão do outro lado do mundo. O termo passou a explicar a dependência sensível que existe entre qualquer acontecimento e as condições iniciais em que ele se dá.

Quatro décadas mais tarde, fizeram um filme ligeiramente ruim, mas muitíssimo inquietante a respeito do Efeito Borboleta descoberto por Edward Lorenz enquanto trabalhava com previsões meteorológicas no MIT. O personagem principal, um menino de infância conturbada, descobre ser capaz de alterar o passado e percebe, de maneira pouco ortodoxa, que pode salvar os que ama de problemas e tragédias. Acontece que, conforme altera o passado e conserta antigos desvios, novos desfechos surgem, e nem todos têm resultados melhores que os anteriores.

Sabíamos desde então, e ainda hoje, que escolhas têm causa e consequência, estômago, amores, caminhos, espíritos e encontros condicionados um pouco ao acaso e outro à matemática, um pouco à prudência e outro à permanência, um pouco ao improviso e outro ao ensaio, num sistema mais ou menos descontrolado de impulso e produto.

Sabemos ainda hoje, e desde então, que escolhas têm causa e consequência, verdade, comédia, miopia, diálogos e madrugadas condicionados um pouco ao momento e outro à história, um pouco à solidez e outro ao movimento, um pouco à intimidade e outro ao desconhecido, num sistema mais ou menos descontrolado de realização e resultado.

Sabíamos desde então, ainda hoje e cada vez mais, que somos só um pouco donos de nós mesmos, e nem sempre é o bastante.

entusiasmo

A palavra era entusiasmo. Havíamos sido desafiados a eleger substantivos, adjetivos, advérbios ou verbos que de algum modo representassem aquele momento em que a realidade implacavelmente postada diante de nós exigia concentração, equilíbrio, bom senso e uma dose extra de fé no futuro. Em um dos papéis, a caligrafia bem-feita de professor anunciava a escolha certeira:

ENTUSIASMO. Substantivo masculino. Ato ou efeito de entusiasmar (-se). Nas religiões não cristãs da Antiguidade, estado de exaltação do espírito, de comoção profunda da sensibilidade de quem recebe, por inspiração divina, o dom da profecia ou da adivinhação. Estado de fervor, de emoção religiosa intensa, que leva à intuição das verdades religiosas ou sobrenaturais. Estado de exaltação da alma que vivencia o poeta ou o artista, inspiração.

O estado de espírito da maioria de nós era justo o oposto. Estávamos desanimados com o cenário econômico e entristecidos com as perspectivas coletivas, conscientes das imensas dificuldades e dos inúmeros desafios erguidos ao redor, distantes em quase tudo das condições de exaltação, fervor ou emoção intensa registradas no dicionário como significados do verbete de dez letras encadeadas em sílabas milimetricamente divididas por cinco.

Tínhamos esperança em temporadas melhores e crença na ideia segundo a qual não se deve julgar cada dia pelas colheitas e sim pelas sementes. Mas não eram estes, em especial, os sentimentos que dominavam aquela manhã.

Ao contrário: havia mais tristeza que alegria e talvez até um pouco de preguiça, mais descrença que confiança, mais medo que coragem, mais cansaço que a palavra que felizmente se anunciou na caligrafia bem-feita de professor quando fomos desafiados a eleger substantivos, adjetivos, advérbios ou verbos que representassem aquele momento.

Entusiasmo lembra dedicação, interesse, encanto, felicidade e afeto. Remete diretamente ao desejo e às vontades. Põe cores vivas em certos encontros, em determinadas conversas e até em alguns silêncios. Ilumina algumas dúvidas, certas faltas e até determinadas partidas. Tem a ver com o essencial, seguir as verdadeiras intenções, a ideia central, a razão principal, o mais alto grau de importância, apesar das decepções, das dissimulações e das expectativas desfeitas.

[É aquela história, sem tirar nem pôr: o essencial tem a ver com ter foco, escolher o que compensa e seguir a filosofia de quem pode tudo, mas nem tudo lhe convém].

Entusiasmo pressupõe vencer o desânimo, ultrapassar a aridez dos corpos sem alma, superar o peso dos tempos difíceis. Em sua jurisprudência, o desalento não tem vez, nem o cansaço, o vazio, os encontros suspensos até segunda ordem. Entusiasmo exige amor pelo momento, entrega, dedicação. Sua ausência pinta de cinza a casa inteira, enche a vida de descrédito, aumenta o ângulo pelo qual vemos as perdas, as partidas, os adeuses.

Entusiasmo é exatamente como no poema.

– Sê todo em cada coisa.
Põe quanto és no mínimo que fazes.